Da esquerda do muro à moral da esquerda
Durante o século XX, a esquerda foi o nome da esperança. Representava a dignidade do trabalho, o sonho da igualdade, a utopia de uma humanidade reconciliada consigo mesma. Era o contraponto moral e político de um sistema fundado na acumulação e na exploração. A sua força residia na ideia de libertação, colectiva, material, concreta.
Hoje, tal força esvaziou-se. A esquerda, despojada das suas referências históricas (classe, produção, conflito social), refugiou-se na moral. Onde antes havia projecto, há agora sentimento. O discurso político cedeu à gramática da virtude. O mundo deixou de dividir-se entre exploradores e explorados e passou a dividir-se entre puros e impuros, entre os ‘do bem’ e os que cometem erros crassos de linguagem.
A indignação converteu-se em moeda moral. O capitalismo, com o seu génio assimilador, absorveu também a rebeldia: transformou o protesto em produto, a diferença em nicho de mercado, a identidade em marca pessoal. Assim, o sistema encontrou a sua válvula de escape perfeita: uma esquerda que já não o ameaça, mas o ilustra.
As redes sociais fizeram o resto. A revolução deu lugar à exibição pública da virtude. O militante tornou-se curador de causas, o........
