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Vazio doutrinário: porque não tenos uma direita própria

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Portugal distingue-se no contexto ocidental por uma anomalia estrutural raramente assumida: a inexistência de uma tradição liberal-conservadora consistente, contínua e intelectualmente sedimentada. Esta ausência não é meramente partidária ou eleitoral; é histórica, doutrinária e institucional. É ela que explica, em larga medida, a dificuldade crónica do país em compreender, traduzir e integrar os grandes debates que hoje atravessam a direita no mundo ocidental, do esgotamento do liberalismo à emergência de correntes pós-liberais, do populismo soberanista às democracias iliberais.

Ao contrário do que ocorreu em países como o Reino Unido ou os Estados Unidos, onde liberalismo e conservadorismo se desenvolveram como tradições intelectuais contínuas, com elites culturais próprias, linguagem política estável, instituições duradouras e uma transmissão intergeracional de ideias, Portugal nunca conheceu uma sedimentação equivalente, mas algumas aproximações com características muito singulares.

O liberalismo oitocentista português foi frágil, descontínuo e frequentemente autoritário, mais preocupado com engenharia institucional do que com a defesa orgânica das liberdades civis e do pluralismo social. Não gerou uma cultura liberal enraizada, nem uma elite capaz de lhe assegurar continuidade histórica. A Primeira República, longe de ser um laboratório liberal, tornou-se um campo de batalha entre jacobinismo anticlerical e caciquismo endémico. No entanto, uma minoria de republicanos “cívicos” ou presidencialistas como António José de Almeida na sua fase moderada, ou a ala do Partido Evolucionista, defendeu um liberalismo de ordem, estabilidade constitucional e pluralismo. Esmagada pela radicalização do Partido Democrático, pela fragmentação partidária e pelo golpe de 1926, esta corrente provou que o liberalismo português nunca soube gerar cultura de compromisso nem moderação institucional. Mais um eco fugaz, sem raízes.

O conservadorismo, por sua vez, nunca se afirmou entre nós como tradição Burkeana, prudente e constitucional, fundada na ideia de continuidade histórica, limites ao poder e respeito pelas mediações sociais. O que existiu, entre 1910 e 1926, foi outra coisa: o Integralismo Lusitano, um contrarrevolucionarismo feroz, ultramontano e antiparlamentar, bebido diretamente de Maistre, Bonald e da Action Française, mas regado com raízes portuguesas como o miguelismo, a teologia coimbrã, o catolicismo intransigente. António Sardinha, Alberto de Monsaraz, Pequito Rebelo e Hipólito Raposo ergueram, na revista Nação Portuguesa, a única tentativa séria de doutrina de direita no século XX antes do Estado Novo. Não era conservadorismo; era restauração radical, hostil ao liberalismo como ao parlamentarismo.

Sufocado pela ditadura militar de 1926, depois absorvido ou esterilizado pelo salazarismo pragmático e administrativo, esse esforço morreu antes de gerar elites duradouras, instituições de transmissão ou linguagem viva. Longe de contradizer o vazio, a sua extinção precoce confirma-o: mesmo a chama contrarrevolucionária........

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