B.B.: a transgressora
Quando Brigitte Bardot irrompeu nos écrans com Et Dieu créa la femme nada ficou como dantes. “Um corpo selvagem, animal e livre irrompe no écran. Subverte e revoluciona os costumes sociais em França e em todo o mundo.” – escrevia o realizador e crítico Jean Douchet, um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma –, enquanto um jornal inglês dizia que BB era “o maior choque europeu desde 1789”. Exagero, talvez. Mas o impacto da sensualidade e da reversão de papéis que Brigitte Bardot trazia atirava-a para a ribalta das grandes estrelas.
A estreia do filme de Roger Vadim na América de Eisenhower, do cardeal Spellman, de John Foster Dulles e do Código Hays também não prometia ser pacífica. O Código Hayes era o regulamento censório, prévio ou póstumo, que entre 1930 e 1968 vigorava em Hollywood, ditando inclusões, exclusões e cancelamentos. Em matéria de moral e bons costumes, pesava-se a nudez feminina, cronometrava-se a duração dos beijos e cancelavam-se indícios de “sexual perversity”. No resto, monitorizava-se a correcta definição e distribuição de bons e maus.
Ora, em Et Dieu créa la femme, Bardot oscilava entre a perversa invenção do Diabo para tentar os americanos de bem e a assombrosa criação do Bom Deus. Talvez por isso em Dallas, no Texas, a polícia local – precocemente preocupada com a especial sensibilidade de certas minorias ou num outro assomo racista mais compatível com a época – tenha proibido os afro-americanos de ver a fita, considerada demasiadamente excitante para a natureza (intrinsecamente “vitalista”?) do homem negro.
Não se pode dizer que os brancos (supostamente mais fortes, ou mais fracos) lhe tivessem ficado indiferentes. De resto, veja-se a história: Juliette tem 18 anos, é órfã, e vive em Saint Tropez; os homens que a seguem e perseguem são Eric (Curd Jürgens), Antoine (Christian Marquand) e o seu irmão mais novo, Michel, (Jean-Louis Trintignant). Juliette ama Antoine, assedia Eric, e acaba por casar com Michel, que a ama, mas que não é correspondido. Isto entre cenas, ao tempo, escandalosas e com um final ambíguo.
Marlene Dietrich, a Lola de Der Blaue Engel (1930), de Joseph von Sternberg, ou........
