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André Ventura: os 7 pecados mortais do predador narcísico

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18.10.2025

Entrei no Chega a 6 de setembro de 2020, com a certeza do descalabro da sociedade portuguesa, e saí meia década depois, a 22 de setembro de 2025, de um partido cada vez mais disfuncional no sentido patológico do termo. Se a experiência agregou um movimento popular inédito capaz de transformar Portugal para muitíssimo melhor, as reformas necessárias não chegam ao sujeito coletivo por serem sugadas por um único sujeito individual. Isso tem nome: abuso de poder narcísico. A evidência transitou de latente a cristalina quando a causa nobre pela qual me bato há mais de vinte anos, a reforma do ensino, a que sobrava da minha missão de deputado, também foi atingida pela cultura de cancelamento com o anúncio do governo sombra. Foi a derradeira oportunidade que poderia conceder ao predador psicológico André Ventura de anular a minha existência. Renunciei de imediato ao mandato na Assembleia da República e desvinculei-me do Chega, pois não toleraria a mim mesmo arrastar-me numa das mais escandalosas práticas de parasitismo social e subsidiodependência, a condição de deputado-joguete nas mãos de um líder narcísico incompatível com qualquer forma de sujeito coletivo, que tratou de destruir os fundamentos de uma instituição sólida que lhe servisse de filtro existencial.

Entre os programas dos partidos políticos e as suas consequências na vida das pessoas comuns cavou-se um fosso destrutivo do contrato social estabelecido, através do voto, entre eleitores e eleitos. Nas sociedades democráticas, aí reside a fonte das relações de confiança, que deve ser revitalizada pela redução significativa dos programas eleitorais, hoje com 30, 50, 100, 200, 500 páginas. Cada eleitor deve poder lê-los com facilidade de início ao fim, pois a verdade é uma essência e não uma lista. Foi a primeira missão do Gabinete de Estudos do Chega, que dirigi entre 2021 e 2022. Razão para o programa do partido ter sido planificado para articular duas componentes: um único programa político (estável no tempo) e sucessivos programas eleitorais (renováveis a cada eleição). O programa político foi concebido para se limitar a definir quem somos (o partido) e cada programa eleitoral serviria para explicar o que vamos fazer. O programa político começa por valores civilizacionais (para todos os seres humanos; todos os portugueses; todo o campo político da direita), e termina numa segunda parte sobre a Sociedade, o Estado e a Economia. Por seu lado, os programas eleitorais sucessivos nunca poderiam ser desligados do estável e original programa político. Logo, o Chega nunca teve um programa com 9 páginas como circula na opinião pública. Cada programa eleitoral estaria dividido em áreas governativas (saúde, justiça, ensino, defesa…), cada qual reduzida a um valor ou princípio geral (derivado do programa político), seguido de um conjunto de princípios associados e medidas concretas fundamentais para essa área, tudo sucinto para cada eleitor cobrar com simplicidade o voto que investiu (poderiam ser em 9 páginas ou menos). Dispensável quando se compreendesse a racionalidade da reforma, ainda assim na versão eletrónica dos programas eleitorais seria possível clicar por cima do título de cada área governativa (saúde, justiça, ensino…) para aceder a uma versão desenvolvida em quantas páginas fossem necessárias, complemento destinado a especialistas. O Chega, então partido novo, avançaria na arena eleitoral para restaurar as relações de confiança dos cidadãos entre si e na democracia. A missão dava os primeiros passos num Gabinete de Estudos sem recursos quando se precipitaram as eleições legislativas de 2022. Confrontado com as primeiras críticas públicas, André Ventura decidiu arruinar o projeto. Nunca o defendeu ou deixou defender publicamente. Em cima das eleições de janeiro de 2022, impôs ao Gabinete de Estudos a sua lista de supermercado: 100 Medidas de Governo. Dois anos depois, insistia em desautorizar-me: Não correu nada bem... Foi a primeira prova da destruição do Chega enquanto partido reformista, hoje tão falhado quanto PS e PSD na matéria. Os anos seguintes confirmaram a pulsão autocrática destrutiva de reformas de André Ventura, traço de personalidade impossível de o tornar um governante responsável.

Porque lida com pessoas, a Igreja mantém sempre o pressuposto da moral espiritual. Pela mesma razão, os poderes públicos e instituições que lidam com pessoas devem ter a sua legitimidade sempre fundada numa moral cívica compreensível com simplicidade pelos cidadãos desde a infância. Razão para o programa político do Chega (2021) começar pela autorresponsabilidade, tornar cada sujeito individual ou coletivo consciente de ser o primeiro e principal responsável pelo seu destino. Sem essa reforma, todas as outras são inúteis. O Chega teria de remeter para o coração da vida social a herança milenar legada pelas tradições ancestrais, tradição greco-romana e tradição judaico-cristã, âncoras de qualquer partido político da direita conservadora. Num Ocidente subjugado ao inverso, à externalização da responsabilidade ou vitimização de tradição marxista (se sou pobre a culpa é do rico; negro do branco; minoria da maioria; imigrante do acolhedor; do terceiro-mundo do Ocidente; por aí adiante), este último tem sido o caminho da morte da consciência humana, do ódio social e do falhanço coletivo, dado instigar os seres humanos a jogarem as responsabilidades para fora da sua consciência, para fora de si mesmos. Daí o dever moral supremo de resgate da autorresponsabilidade. André Ventura nunca compreendeu ser essa a essência ideológica do seu próprio partido político, e deixou-me solitário na missão. Cumprir o primeiro dever imposto pelo programa político sufragado no Conselho Nacional de Sagres (2021) revelou-se impossível para um líder narcísico, pois obrigava-o a descentrar o Chega da sua pessoa (indivíduo) e recentrá-lo num valor civilizacional universal e abstrato (coletivo). Acontece ser essa a condição da maturidade humana, para mais inerente a qualquer cristão. Cristo cumpriu a sua missão na terra nunca apontando para si mesmo, antes e sempre para que se cumprisse a vontade do seu Pai do Céu. A autorresponsabilidade existe para funcionar no........

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