Somos todos muito bem medicados
Portugal bateu um recorde que ninguém celebra. E que ninguém, curiosamente, quis evitar.
Nunca consumimos tantos antidepressivos. Os números das doses diárias definidas atingiram em 2023 o valor mais alto de sempre. Somos um dos países mais medicados da Europa em psicofármacos, com 88 mil caixas de antidepressivos por dia. Somos recordistas, silenciosamente, com a discrição envergonhada de quem esconde um vício que ainda não ousou confessar ao médico de família. E a resposta que ouvimos, invariavelmente, da boca dos que governam e dos que comentam? Precisamos de mais acesso a tratamento em saúde mental, de preferência sem fármacos. Exigem-se mais consultas no SNS, mais aplicações digitais, mais linhas de apoio, sem fundamentar o eventual resultado ou o possível valor em saúde. Afirma-se tal como se o problema fosse uma insuficiência de oferta terapêutica, e não uma falha estrutural de civilização.
Há 40 anos, os estudos Whitehall (*) no Reino Unido demonstraram algo que ainda hoje incomoda profundamente quem governa e quem gere: o que mata as pessoas não é o trabalho difícil, é o trabalho sem controlo. É destrutivo acordar todos os dias para uma função onde não se decide nada de relevante, onde a injustiça é estrutural e aceite como fatalidade natural. É arrasador trabalhar onde o esforço não tem correspondência no reconhecimento nem no salário, e onde a hierarquia existe não para liderar, mas para oprimir, com a eficiência silenciosa de quem aprendeu que o poder se exerce sobretudo por meio da indiferença. Marmot et al. descobriu, há quatro décadas, que o stress crónico mais letal não é o do gestor sobrecarregado que tenta apanhar o voo das sete para Frankfurt, mas sim o do........
