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“Shakespeare ou botas?” 

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tuesday

No romance “Os Demónios” de Fiódor Dostoiévski, uma das personagens principais, o aposentado tutor Stepan Trofímovitch, coloca uma questão que ressoa com inquietante atualidade.

Num dos capítulos deste clássico do século XIX, o governador Lembke assiste à inundação da sua propriedade. Este mar de gente de todas as qualidades e feitios reúne-se como fruto de uma fête pública, numa tentativa ingénua de democratizar o acesso a eventos aristocráticos e de promover as boas relações entre os radicais niilistas e a conservadora elite local.

Inevitavelmente, as coisas não correm como esperado.

A juventude niilista surge a transbordar de ironia e desprezo. As diversas leituras e intervenções são alvo de riso de ambos os lados. O evento rapidamente começa a desmoronar-se.

Neste ambiente hostil, criado pelas rudes interjeições desta barbárie utilitária, Stepan Trofímovitch sobe ao palco.

Naquilo que talvez tenha sido um dos discursos mais proféticos da literatura do século XIX, Stepan brade diante da plateia de radicais: [Tradução direta do texto russo em domínio público]

“Há forças perigosas, minhas senhoras e meus senhores… forças que hoje se levantam e não respeitam nem a razão, nem a beleza, nem o coração humano. Forças que nasceram dos nossos erros! Filhos que gerámos — nós! — com a nossa fraqueza e com a nossa confusão. A juventude… a juventude perdeu-se! Não escuta ninguém, não acredita em nada, deseja destruir tudo antes de compreender o que é.”

E pede que acreditem na beleza, na verdade moral, na dignidade do espírito humano. Pelo meio, surge a pergunta que intitula o artigo:

“O que é mais necessário? Shakespeare ou botas? Rafael ou petróleo? Pergunto-vos, minhas senhoras e meus senhores… o que é mais necessário ao homem?”

A poesia da questão, mesmo com o seu tom inadvertidamente cómico, pretende mostrar que numa sociedade há um lugar indispensável e estrutural para a sua cultura, para a sua beleza.

É uma questão que, embora poética em essência, é de maior relevância para nós europeus no século XXI. E passo a explicar porquê.

No século XIX, o niilismo russo, de carácter profundamente utilitário e ateísta, negou a beleza, a religião e os costumes tradicionais russos de então, como antiquados e desprezíveis. Sentiu-se capaz, e até obrigado, a descartar o que herdara, ao acreditar que assim daria início a algo muito melhor. Mas não sabia bem o que tinha herdado, porque nunca lhe havia sido devidamente explicado e exemplificado.

O desespero de Stepan neste seu último discurso, é o desespero de uma geração de intelligentsia russa marcada por um........

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