Ilusão ou força interior?
Mesmo para quem gosta da América torna-se irritante a prepotência com que Trump se refere à NATO. O homem não informou os seus aliados que ia atacar o Irão, repetiu vezes sem conta que não precisava dos europeus e que a guerra estava ganha, para agora ameaçar sair da aliança atlântica porque os aliados não fazem o que ele quer, que é ajudá-lo a concluir o que começou. A vontade que dá é mandá-lo à fava. Só que isso implica uma de duas coisas: ter força ou saber iludir que se tem essa força.
O grande mestre da ilusão do poder foi Charles de Gaulle. Mesmo com uma parte da França ocupada e a outra dirigida por um fantoche de Hitler, de Gaulle surgia e falava com a dignidade de quem detinha um imenso poder. Na verdade, apenas se propunha representar uma grande nação. Uma ideia de grandeza que o próprio nunca definiu muito bem o que seria porque era mesmo só uma ideia, nada de muito concreto. Mas foi com essa ideia que de Gaulle se fez respeitar e levar britânicos e norte-americanos (e soviéticos) a compreenderem que alimentar essa ilusão seria indispensável para a Europa do pós-guerra. Tão assim foi que de Gaulle desembarcou na Normandia logo que pôde e as tropas francesas foram as primeiras a entrar em Paris. A cidade ultrajada, destruída e martirizada não fora somente libertada. Era também vencedora. Foi assim que a França se sentou à mesa dos que ganharam a guerra e reconstruiu a sua identidade.
Seria natural que de Gaulle servisse de inspiração aos actuais líderes europeus. Sem poder militar que se possa afirmar de contraponto ao norte-americano, iludir possuir a força que não se tem seria a melhor forma de lidar com Trump, J.D. Vance e Hegseth. Acontece que a força de de Gaulle não era ilusória. Era interior. Advinha da sua personalidade, de um autodomínio quase absoluto e de uma austeridade esmagadora, como também era fruto das vivências duras e formativas que experimentara: prisioneiro dos alemães na Grande Guerra, o ter assistido de perto à derrocada da França perante a invasão germânica de 1940, a resistência a partir de Londres, os sacrifícios pessoais que aceitou como se fossem inevitáveis, a capacidade de se afastar porque discorda e ficar doze anos longe de Paris à espera que lhe implorassem para que voltasse, tudo isso lhe deu a força para ser o homem a quem, anos mais tarde, Kissinger (que perdera boa parte a família no Holocausto) se dirigiu com reverência e um certo temor.
Estive no fim-de-semana passado em Paris para a exposição de Renoir do Museu d’Orsay e comprei o último livro de Franz-Olivier Giesbert, ‘Voyage Dans la France D’avant’. Às tantas, e sobre a América e a relação da França com esta, Giesbert cita o insuspeito Norman Mailer que nos anos 80 lhe disse que os americanos são mais sólidos que os franceses e que a cultura deles sobreviverá depois da francesa perecer, simplesmente porque Deus, nos Estados Unidos, está presente no dia-a-dia dos norte-americanos e da vida política, ao contrário do que acontece em França. Giesbert conta-nos que Mailer lhe confidenciou ser sua convicção que os franceses, depois de terem feito história, o que querem é repousar e que o complexo de superioridade que manifestamente têm resulta do medo que lhes assalta quando olham para o futuro. Se soubermos que de Gaulle era profundamente católico compreendemos que grande parte da sua força interior advinha daí. Era genuína e não tinha nada de ilusório. É custoso reconhecer isto numa sociedade europeia que confundiu o ser laica com a falta da crença individual em Deus, mas não é possível repensar o futuro se não formos crus e exigentes quando examinamos o passado e o presente.
Quando de Gaulle retirou a França do comando militar da NATO, os franceses tinham dissuasão nuclear e o maior exército da Europa ocidental. Eram também liderados por alguém com experiência de guerra (no terreno e no planeamento), que conhecia bem a sua realidade, os riscos que se corriam e os erros a evitar, vantagens que na cabeça da pessoa certa se tornam numa formidável arma política. Mais que isso fora escolhido por um povo que, embora uns cidadãos tenham sido melhor que outros – e Giesbert menciona com um orgulho não escondido a experiência do seu avô materno –, lutara pela sua liberdade, logo era respeitado por tal. Ponto a favor que os europeus de agora e os seus líderes políticos não têm. Sem arsenal militar e sem experiência de guerra ou, pior ainda porque de resolução mais difícil, sem dificuldades de maior que nos fortaleçam o carácter, cabe-nos reconhecer com humildade as nossas falhas para que, com tempo, as consigamos colmatar. A prudência e o equilíbrio acompanhado de um investimento na nossa segurança é o que permitirá às gerações futuras agirem com a liberdade de quem não se conforma com a prepotência de líderes fracos que se julgam fortes por usarem as calças que presidentes com outro nível vestiram no passado. Ganhar tempo (e aproveitá-lo bem) é o que nos cabe fazer por agora.
Receba um alerta sempre que André Abrantes Amaral publique um novo artigo.
