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Quando o INEM não chega a tempo

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A resposta em emergência médica é um dos indicadores mais exigentes do funcionamento do Estado. Quando o INEM não consegue responder em tempo clinicamente adequado, as consequências podem ser irreversíveis. Esta constatação deveria, por si só, impor uma reflexão profunda sobre o modo como o Serviço Nacional de Saúde é governado, financiado e organizado. No entanto, em Portugal, continua a ser tratada como um problema episódico, uma sucessão de falhas isoladas ou uma inevitabilidade estatística, quando na realidade expõe fragilidades estruturais persistentes.

Há mais de duas décadas que a emergência médica vive num estado de tensão permanente, alternando entre períodos de aparente normalidade e momentos de rutura mediática. Cada crise é apresentada como exceção; cada falha, como acidente; cada morte, como episódio isolado. Porém, o padrão repete-se com demasiada regularidade para continuar a ser explicado por contingência. O que está em causa não é a imprevisibilidade do risco, mas a previsibilidade da falha.

Portugal não é um país que invista pouco em saúde. Segundo dados da OCDE e da União Europeia, a despesa total em saúde ronda os 10,2% do Produto Interno Bruto, situando-se em linha — e por vezes acima — da média europeia. O investimento público cresceu de forma consistente na última década, reforçado por verbas extraordinárias associadas à pandemia e por fundos europeus de recuperação e resiliência. Em termos de esforço financeiro agregado, Portugal não se encontra na periferia do modelo social europeu. Ainda assim, serviços essenciais como a emergência pré-hospitalar continuam a falhar de forma grave e recorrente.

Este paradoxo obriga a uma pergunta incómoda: se o dinheiro existe, porque falha o sistema quando a resposta tem de ser rápida, coordenada e eficaz? A resposta não reside apenas na escassez de profissionais, nem pode ser explicada exclusivamente por fatores demográficos. Reside, sobretudo, na forma como os recursos públicos são distribuídos, priorizados e geridos. Uma parte significativa do financiamento tem sido absorvida por infraestruturas, reorganizações administrativas sucessivas, sistemas de informação incompletos ou projetos de modernização com impacto limitado na........

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