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Burnout. Da arte de errar

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23.10.2025

Tenho tido uma mistura bastante simpática de sorte e trabalho na minha vida. Sou naturalmente interessada por uma imensidão de temas, não tendo grandes dificuldades a aprender coisas novas. Nunca lutei particularmente por nada, seja uma vocação ou uma ambição. Fui-me deixando navegar à bolina, aproveitando oportunidades e deixando-me desafiar pelo que surgia. E foi correndo bem, com uma carreira diversificada e uma promoção permanente. A miúda das boas notas continuou o seu percurso no mundo profissional: sempre com bons resultados, sempre agradando aos outros. Sempre controlando cada minuto e cada emoção. Não há cansaço, há força de vontade.

De conceito em conceito, de moda em moda, vamos tentando espartilhar as partes da nossa vida perfeita, criando metas e objetivos. Com linhas grossas traçamos o equilíbrio entre a identidade própria, o trabalho, a família e os amigos. Comprometemo-nos a dar tempo aos outros e a dar tempo a nós próprios. Enchemos as horas de decisões, de sins e de ações. Queremos controlar o equilíbrio como controlamos tudo o resto: com apps, calendários e determinação. Recusamos que a linha se desfoque, que tenha movimento. É nossa. E perfeita.

Durante vários anos consegui alimentar a ilusão de que podia ter tudo. Mãe de duas filhas, com um marido que sempre incentivou a minha realização pessoal e profissional, mesmo em prejuízo da sua própria, acumulava semanas e meses seguidos com dias de mais de 12 horas de trabalho. É só mais um projeto, é só mais uma fase exigente, sem deixar cair as reuniões na escola e o acompanhamento dos trabalhos de casa.

Em 2019, ganhei uma nova identidade, com um diagnóstico que podia trocar-me as voltas. Acrescentei às identidades anteriores o ser mãe de uma criança autista. Não mudei nada do que fazia, apenas passei a ser também gestora de um calendário imprevisível de........

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