Os 100 anos que ninguém notou
Fosse biologicamente possível e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário – podemos não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais participação na forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo. Reconheço, porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E, todavia, tenho quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz comemorar umas efemérides e desviar os olhos de outras.
Em 2010, celebrámos durante um ano a implantação da República. Houve comissão para as comemorações, filmes, programas de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje, que faz precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime republicano, liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia dúzia de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim, bem sei que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem sei que vivemos em república até hoje – mas viver em república não é um bem por si mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que aconteceu há 100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em dar-lhe alguma atenção.
Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de Braga, em desfile país abaixo até à capital, não havia duas frentes em confronto, duas visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço, desilusão. Meros 16 incompletos anos depois, tinha fracassado a........
