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O abono de família do Bloco /premium

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09.02.2019

No tempo de Pedro Passos Coelho é que era bom: maridos matavam as mulheres, mulheres matavam os maridos, pais matavam os filhos, filhos matavam os pais, genros matavam as sogras, sogros matavam as noras, cunhados matavam quem quer que os cunhados matam, pessoas matavam-se a si próprias e, no final, podia-se sempre incriminar o governo e a “troika”.

No “Público”, um dos vários “media” que descobriu a “violência doméstica”, a angústia existencial e o sofrimento humano para aí em 2012, um psicólogo escrevia que “uma sociedade desigual, de baixos salários, desemprego, falta de oportunidades é também mais desconfiada, mais doente, mais ansiosa e mais violenta.” Não importava que a frase fosse parcial ou completamente desmentida pelos factos (há muito mais mulheres mortas por familiares na Suíça do que na Eslovénia; há muito mais suicídios na Eslovénia do que na Nicarágua; há muito mais homicídios na Nicarágua do que no Burkina Faso). Também não importava que, em Portugal, a quantidade de assassínios sortidos tendesse a baixar durante os negros anos da “troika”. O importante é que se pudesse usufruir das desgraças privadas, decorrentes de múltiplas causas e insusceptíveis de generalizações, em benefício de campanhas partidárias e catequização ideológica. Em suma, o oportunismo sem vergonha viveu uma época dourada.

Desde que a frente de esquerda tomou conta disto, surgiu um ligeiro obstáculo ao aproveitamento das tragédias íntimas. Claro que os cidadãos continuaram a matar-se e a agredir-se com o empenho do costume, que comparativamente com o “estrangeiro” até nem é demasiado. Mas a impossibilidade logística de culpar Pedro Passos Coelho e a “troika” pela sessão de pancadaria de anteontem numa marquise de Moscavide tornou a pancadaria desinteressante,........

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