O problema não é a existência de bullies. É a incapacidade dos sistemas em deixar de os recompensar
A maioria das análises sobre bullies - sejam indivíduos, grupos ou Estados - começa no lugar errado. Discute intenções, traços psicológicos ou legitimidade moral. A pergunta decisiva é outra, e é empiricamente verificável: em que sistemas a agressão continua a produzir retorno suficiente para se tornar uma estratégia racional?
Antes de ser um aluno, um líder político ou um Estado, um bully é uma posição relacional. Não é uma patologia nem um desvio moral. É uma função que emerge quando o comportamento agressivo melhora, de forma consistente, a posição do agressor no sistema.
Este padrão é estável e observável. Em sociedades humanas e pré-humanas, o bully não é necessariamente o mais forte ou o mais violento, mas aquele cuja agressão gera benefícios recorrentes: estatuto, recursos, atenção, medo ou centralidade simbólica. Onde esses retornos não existem, a agressão não se fixa como estratégia. A variável constante não é a personalidade do agressor, mas a arquitetura de incentivos do sistema.
Daí um erro recorrente dos sistemas contemporâneos: assumir que punir é o oposto de recompensar. Na prática, o castigo falha sempre que funciona como recompensa secundária; falha quando aumenta a notoriedade do agressor, reforça lica ou confirma a sua capacidade de provocar reação.
Em ecologias sociais complexas, não existe atenção neutra. Atenção é um recurso escasso. Sempre que a resposta pública melhora a posição relacional do mais forte - mesmo com custos materiais reais - o comportamento agressivo torna-se adaptativo. É a lógica simples de quem continua a ir ao mesmo poço enquanto ainda dá água, mesmo que venha barrenta.
Este mecanismo é observável em múltiplos níveis. É o mesmo mecanismo que se observa numa escola quando um aluno agressivo, mesmo punido, ganha estatuto porque passa a ser falado, temido ou antecipado — a punição não o retira do centro; fixa-o lá. Em ambientes digitais, práticas de exposição........© O Mirante
