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A tal liberdade

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22.03.2026

O tempo em que se passou essa história passou faz tempo. O tempo não se conta, apenas, no tempo que passa. O tempo também se conta no tempo que não passa. O tempo que não passa eterniza o tempo e os seus encantamentos.

A história não começou encantada. Começou como começam histórias que nos machucam por vermos machucados os outros.Um outro machucado é um mundo inteiro.

Um outro machucado era um passarinho, no tempo da história que não passa. Porque o tema dessa história que não passa é a tal liberdade.

Na cidade do interior, no tempo da minha infância, eu vivia em casa dos outros. Comia bolo de fubá na casa de Helena, a professora. Acompanhava as preces, na casa de Adélia, a rezadeira.Nadava no tanque feito piscina, na casa de Marcia, a que tinha vindo da capital cuidar da mãe. Visitava as hortas no quintal de Teodoro.
Jogava bola no campinho em frente à Igreja. Ia ver a banda na praça dizendo ser domingo. E gostava de estar em casa esperando meu pai voltar da loja e trazer o pão para comermos com a manteiga feita na nossa cidade e tomarmos café e agradecermos viver. E tinha a velha estação de trem em que íamos ver o dia se despedindo, fazendo bonito no brilho do sol nas águas do rio.

Havia um Lucio, meu amigo, que morava perto do tal rio do pôr do sol, perto de umas árvores em que passarinhos cantavam a vida sem preocupações que não a de cantar, voar, se alimentar e amar.

Um dia, Lucio me chama para dizer de sua coragem e de sua esperteza. Armou um alçapão. Preparou tudo. E um sabiá, distraído, despido de desconfiança se deixou capturar.O passarinho havia se debatido no início, dizia Lucio: "Agora está quieto".

Eu não sabia o que dizer. Por que prender o sabiá?Prender um outro jamais será um ato de coragem. Pensei e repensei, naquele tempo cujo tempo permaneceu, no que fazer para o convencimento do meu amigo. Pensei na minha vida de casa, em casa sem gaiolas, sem prisão.

Eu olhava para o passarinho e me via passarinho.E ouvia o canto dos passarinhos livres tão perto dali.Lucio era bom. Só fez o que fez porque ouviu um outro que fez. E quis saber se conseguia.

Do alto dos meus seis ou sete anos, resolvi tentar convencer.

"E o pai dele, e a mãe?"

Lucio ficou olhando para minhas palavras.

"Vai prender também?" 


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