O artilheiro embriagado e uma menina chamada Tractor
Na sua biografia de Ryszard Kapuscinski, possivelmente o repórter mais célebre da segunda metade do século XX, Artur Domoslawski aponta imprecisões, exageros e efabulações a que o seu biografado recorria para tornar os textos mais aliciantes. Domoslawski evita usar a palavra mentira – prefere colocar a questão de uma forma mais elegante, rotulando os seus livros de ‘literatura’.
Seja como for, essa sombra da dúvida pode tornar a leitura das obras de Kapuscinski um exercício um tanto ingrato, em que oscilamos entre deixarmo-nos levar pela história e hesitarmos a cada passo, receosos de cair numa armadilha.
Ele gostava de contar, por exemplo, que o pai tinha conseguido escapar ao massacre da floresta de Katyn, em 1940, em que os soviéticos eliminaram metódica e implacavelmente a elite do exército polaco – cerca de 20 mil oficiais. Segundo Domoslawski, trata-se de mais uma história inventada.
Essa questão de crer ou não crer colocou-se-me recentemente enquanto lia O Império (ed. Campo das Letras), o livro em que Kapuscinski........
