A inflação do medo
A guerra no Médio Oriente deixou de ser apenas uma apreensão geopolítica para se tornar um fator de pressão real sobre a estrutura de custos global. Historicamente, ambientes de guerra têm servido de pretexto para justificar subidas de preços que, nem sempre, têm respaldo na evolução direta dos custos de produção. É neste cenário de incerteza que a monitorização ativa e a transparência se tornam ferramentas económicas cruciais.
Em Portugal, a dependência do transporte rodoviário de mercadorias torna a economia particularmente vulnerável à volatilidade dos preços dos combustíveis. Como tal, a subida do petróleo e derivados tem uma capacidade de capilarização rápida, contaminando toda a cadeia de valor. Contudo, importa distinguir o que é um ajuste inevitável de custos do que é puro aproveitamento oportunista. É aqui que o papel de organismos como a Autoridade da Concorrência (AdC), a ASAE e os Observatórios de Preços se torna vital. Estas instituições, em conjunto com uma sociedade civil atenta, devem intensificar a fiscalização de práticas abusivas e subidas injustificadas que visam apenas a expansão de margens sob a capa da “crise”.
Ao Governo exige-se uma postura de equilíbrio. Se, por um lado, as medidas de mitigação fiscal sobre os combustíveis ou apoios diretos a setores ou segmentos populacionais críticos podem aliviar a pressão imediata, por outro, a margem orçamental não é infinita. A intervenção deve ser cirúrgica e focada na estabilização de custos de produção, evitando que o choque exógeno se transforme numa espiral inflacionista.
O cenário é agora mais cinzento, como confirmam as novas previsões do Banco de Portugal apresentadas na quarta-feira. Apesar de o estudo ter sido efetuado com apenas poucos dias de guerra, o crescimento económico para 2026 já foi revisto em baixa, fixando-o em 1,8% — um corte de cinco décimas face às projeções anteriores. Esta revisão reflete não só o impacto da incerteza geopolítica no consumo e investimento, mas também uma inflação que, embora em trajetória de descida, permanece exposta a novos choques energéticos. A resiliência que temos observado no mercado de trabalho continuará a ser testada. No atual contexto, mais do que nunca, a credibilidade das instituições e o rigor na formação de preços serão determinantes para evitar que o custo da guerra seja pago de forma desproporcional pelas famílias.
