Crime: futuro e preconceito
As estatísticas mostram, recorrendo à dupla de adjetivos escolhida pelas autoridades, um "constante e consistente" aumento da cibercriminalidade na última década. Nem seria preciso invocar números, porque todos recebemos e conhecemos mensagens que simulam dívidas às Finanças ou ao SNS, esquemas como o famoso "olá mãe, olá pai", telefonemas fraudulentos, tentativas de "phising" ou ataques informáticos que fragilizam empresas e serviços da Administração Pública. Se a isso somarmos as novidades que a todo o momento a inteligência artificial acrescenta a este cardápio, criando "ransomware" mais sofisticado e "deepfakes" convincentes, é fácil de perceber o quão rapidamente a criminalidade está a mudar.
A escolha de Carlos Cabreiro, desde sempre ligado ao crime informático, para liderar a Polícia Judiciária é um sinal positivo de reconhecimento da importância da criminalidade tecnológica. De pouco serve, contudo, se o Governo não lhe der condições - financeiras e organizacionais - para transformar a PJ numa polícia verdadeiramente digital. As forças policiais têm de estar na vanguarda tecnológica, ou serão ultrapassadas por quem comete os crimes. É necessário, em simultâneo, investir em literacia digital entre a população com mais de 65 anos, já que a disparidade de competências por idades é mais acentuada em Portugal do que na média da União Europeia.
Em matéria de segurança e criminalidade, o Governo tem muitas vezes cedido ao discurso populista e fantasioso da extrema-direita, permitindo associações abusivas entre crime e imigração. Os números do Relatório Anual de Segurança Interna mostram uma descida da criminalidade grave e violenta e mantêm a violência doméstica como o tipo de crime mais participado às autoridades. Já os crimes de ódio aumentaram 6%. Olhar para os fenómenos sem lentes de preconceito é o ponto de partida para definir políticas adequadas. Antecipando riscos que a tecnologia traz ao nosso futuro, sem deixar de reconhecer a chaga social e cultural que nos mantém presos a padrões do passado.
