Esfera pública, incerteza e crise da prospetiva (II)
Quem responde, de modo responsável, perante o futuro? A atual situação de opacidade em matéria de imputação de responsabilidade é muito do agrado dos agentes políticos que, assim, alargam bastante o seu espaço de ação e manobra. Em matéria de prospetiva estamos, portanto, necessitados de um conceito de responsabilidade política e pública adequado à atual complexidade da sociedade contemporânea. Com efeito, os riscos globais e o perigo iminente das Grandes Transições reduzem o nosso horizonte temporal, a estabilidade das grandes tendências e, portanto, a consistência do exercício de macro prospetiva que, por esse facto, se reduz a uma micro prospetiva de decisões modestas e incrementais sem impacto significativo.
Neste ambiente de grande incerteza, a prospetiva encontra-se algures entre a projeção do presente e a antecipação do futuro, entre o diagnóstico e o prognóstico. Por isso, a principal tarefa da prospetiva não é extrapolar tendências ou acertar no alvo, é expandir campos de possibilidades e múltiplos futuros. Porém, em vez de uma grande prospetiva para a configuração de um futuro melhor, temos hoje uma rotina burocrática e administrativa, uma micro prospetiva, se quisermos, uma modernização reflexiva no quadro de instituições, burocracias e algumas academias. Na verdade, perante uma contingência tão elevada e recorrente, a prospetiva deixa de ser o futuro como progresso e passa a ser o futuro como risco e probabilidade. Vivemos um mundo de consequências imprevistas e secundárias e efeitos colaterais. Trata-se, portanto, para a prospetiva, de minimizar o risco sistémico e os seus efeitos colaterais, por um lado, e de alargar o campo das possibilidades, por outro. Nas condições atuais de extrema contingência muitas decisões políticas são inconsequentes e irrelevantes e tanto mais quanto nos abeiramos da ingovernabilidade política e do radicalismo político-partidário. Nesta linha de pensamento, a prospetiva é, hoje, uma........
