O dilema do século no bairro
Imaginemos um bairro antigo. Não é um bairro perfeito, mas é um bairro organizado. Há regras básicas, um entendimento comum e uma memória coletiva de algo que ninguém quer repetir. Há muitos anos, uma grande briga envolveu quase todos os moradores: casas destruídas, feridos, mortos. No fim, o bairro percebeu que, se cada um resolvesse os seus problemas à força, ninguém ficaria seguro. E assim nasceu um acordo simples e solene: ninguém entra na casa dos outros à força.
Durante décadas, esse pacto funcionou. Houve conflitos, claro. Discussões entre vizinhos, desentendimentos familiares, gente difícil de aturar. Mas evitou-se o pior. O “mal menor” era evidente: suportar alguns comportamentos intoleráveis para evitar uma nova guerra no bairro inteiro.
Mas numa das casas, ao fundo da rua, vive uma realidade diferente. Lá dentro, um homem exerce poder absoluto sobre a sua família. Agride, humilha, controla. Todos sabem. Ouvem-se gritos. Vêem-se marcas. Os filhos crescem com medo e, quando podem, fogem. Os vizinhos comentam entre si, condenam, afastam-se. Alguns chamam a polícia, outros assinam abaixo-assinados. Nada muda.
Porquê? Porque há os amigos do agressor. Jogam cartas juntos, cresceram no mesmo bairro, “ele sempre foi assim, mas no........
