Democracias podem cair nas urnas; ditaduras, não
Há algo de profundamente tranquilizador na ideia de que o voto seja, por si só, um antídoto contra o autoritarismo. Trata-se de uma crença quase terapêutica: se participamos do ritual eleitoral, então estamos protegidos. Essa crença, no entanto, é tão reconfortante quanto falsa. O voto pode transformar democracias em ditaduras.
Durante os últimos anos, em especial depois da publicação de Como as democracias morrem de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, não nos cansamos de ouvir que as democracias não morrem apenas por golpes militares ou tanques nas ruas. Muitas vezes, elas se despedem educadamente, por meio de eleições corretas, fiscalizadas e até celebradas. O paradoxo não é novo: o procedimento democrático pode ser usado para produzir governos antidemocráticos. A história do século XX é pródiga em exemplos.
A Venezuela não oferece apenas um retrato de um colapso institucional; oferece um aviso. Não sobre o fim abrupto das democracias, mas sobre o modo como elas se desgastam
A democracia, convém lembrar, não é apenas um método de escolha de governantes. É um sistema de limites, garantias, direitos e deveres que antecedem e sobrevivem ao voto. Quando o sufrágio passa a ser entendido como um cheque em branco – uma autorização moral para suprimir direitos, deslegitimar opositores ou relativizar a lei –, ele deixa de ser instrumento da democracia e se torna seu........
