“Portugal é um jardim à beira-mar plantado” e “a Madeira é um jardim”: eis as provas de que Epicuro de Samos (quiçá Edmundo de Samora Correia) era português, que só por rasgo de humildade pátria deixámos que a Humanidade conhecesse por ateniense. Falo, claro, do fundador do Epicurismo, conhecido como o “Filósofo do Jardim”, que postulou a “procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de ausência de medo junto da ausência de sofrimento corporal” (vide Wikipédia).

Não sejam literalistas e concedam-me a liberalidade própria de um artigo de opinião sem as obrigações de rigor dos ensaios: Portugal é, na maior parte do tempo e por ordem decrescente de grandeza, um país de epicuristas, xenófobos, nêsperas e estóicos.

Indultem-me: não há, nesta afirmação, qualquer maniqueísmo moralista. Encontram-se epicuristas, xenófobos, nêsperas e estóicos em todos os grupos sociais e ao longo de todo o espectro político nacional. Mais: as correntes filósoficas apropriadas pelos homens são como as doenças mentais: todos têm alguns traços de todas. Quem é que não é estóico à saída da missa de Domingo e epicurista à meia-noite de 6ª feira? A questão é que, desconfio, há mais gente acordada à meia-noite de 6ª feira do que a ir à missa ao Domingo.

Olho para o país e lembro-me sempre daquele aforismo que, sem ter conseguido confirmar a fonte, “comprei” como sendo de Jorge Borges de Macedo: “Portugal e os portugueses sucumbem à mais ligeira facilidade”. A frase é contraintuitiva, mas funciona como uma espécie de dolce fare niente à portuguesa: se a bonança parece que vem, aproveitemo-la por antecipação.

Ora, ninguém como o PS, foi capaz de perceber melhor esta inclinação dos portugueses para o epicurismo em detrimento do estoicismo. Lembro que o estoicismo, fundado por Zenão de Cítio (que, definitivamente, não era português), defende uma “filosofia de virtude pessoal, baseada num sistema sustentado pela lógica, pela razão e pela prática de virtudes cardinais como forma de atingir uma vida ética de acordo com a natureza. Entre as bases estoicas destacam-se o autocontrole das emoções como via para a indiferença ao prazer e a valorização da virtude” (vide Wikipédia, outra vez).

Ora, Portugal foi, nos últimos anos, assaltado – sem aspas – por casos de corrupção, erosão do prestígio das instituições, deterioração da confiança nos políticos, destruição da qualidade dos serviços públicos e ausência de perspectivas de melhoria futura. E o que é que os portugueses fizeram nas últimas eleições? Deram a maioria absoluta ao PS.

É claro que nem todos. De entre os que não constam do rol do Largo do Rato, os mais novos partiram e os que ficaram, olharam à volta à procura de estóicos e não os encontrando, entregaram-se aos xenófobos, basicamente os que têm “medo, aversão ou a profunda antipatia em relação a estrangeiros, ao que vem do estrangeiro ou ao que é estranho ou menos comum, com uma cultura, hábito, etnias ou religião diferente” (vide Wikipédia, uma vez mais). E, com esta definição, talvez por causa da Guerra entre Esparta e Atenas, há 2.500 anos, Xenofonte tenha ganho uma fama pior do que o proveito. Quem nunca?

Mas dizia que, de todos os tipos os há ao longo de todo o espectro político. Os xenófobos não são excepção: dos que, à direita, não gostam de imigrantes pobres aos que, à esquerda, não gostam de imigrantes ricos, eles andam por aí.

Há dias, um estóico falou em Trás-os-Montes: “Quando se perde a memória somos todos iguais. Isso na política é uma coisa terrível. É fatal. Se somos todos iguais, tanto faz estar lá um como o outro”, disse. Alertou ainda para o facto de as instituições se estarem a “erodir” a uma “velocidade muito grande” e isso pode ter um consequência inevitável: o “colapso” das sociedades. O estóico é Pedro Passos Coelho, e a terminar ainda disse: “O que tem de ser tem muita força. Mas, se não for do meu agrado, a gente tem de fazer qualquer coisa. E nem sempre essa reação é atempada. Quando não é atempada, assume outras formas que depois nos apressamos a condenar. Quando é muito tarde, no fundo, estamos a condenar-nos por não termos agido quando devíamos”.

E pergunta o estimado leitor, onde é que entram aqui as nêsperas? Oh, os Jardins estão cheios de nêsperas. E o Mário Henrique-Leiria explica o que lhes acontece: “Uma nêspera estava na cama, deitada, muito calada, a ver o que acontecia. Chegou a velha e disse: olha, uma nêspera! E zás, comeu-a. É o que acontece às nêsperas que ficam deitadas, caladas, a esperar o que acontece.”

E com isto, eu, que também sou um epicurista, vou ali tomar um Gin tónico, com a certeza de que às vezes, no Jardim, fazem falta estóicos.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

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Epicuristas, xenófobos, nêsperas e estóicos: eis Portugal em 2024

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29.01.2024

“Portugal é um jardim à beira-mar plantado” e “a Madeira é um jardim”: eis as provas de que Epicuro de Samos (quiçá Edmundo de Samora Correia) era português, que só por rasgo de humildade pátria deixámos que a Humanidade conhecesse por ateniense. Falo, claro, do fundador do Epicurismo, conhecido como o “Filósofo do Jardim”, que postulou a “procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de ausência de medo junto da ausência de sofrimento corporal” (vide Wikipédia).

Não sejam literalistas e concedam-me a liberalidade própria de um artigo de opinião sem as obrigações de rigor dos ensaios: Portugal é, na maior parte do tempo e por ordem decrescente de grandeza, um país de epicuristas, xenófobos, nêsperas e estóicos.

Indultem-me: não há, nesta afirmação, qualquer maniqueísmo moralista. Encontram-se epicuristas, xenófobos, nêsperas e estóicos em todos os grupos sociais e ao longo de todo o espectro político nacional. Mais: as correntes filósoficas apropriadas pelos homens são como as doenças mentais: todos têm alguns traços de todas. Quem é que não é estóico à saída da missa de Domingo e epicurista à meia-noite de 6ª feira? A questão é que,........

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