Sem férias da história
A Europa nunca esteve de férias da história, como afirmou Friedrich Merz. Cada pedra, cada praça, cada parlamento carrega memórias de impérios desfeitos, de guerras devastadoras e de reconstruções forçadas. E ainda assim persiste entre alguns dos seus dirigentes a ilusão de que seria possível suspender o tempo, criar um interlúdio em que a integração política avançasse com serenidade. Não foi a Europa que esteve de férias. Foram os seus líderes que desistiram de a reinventar. Que desistiram de pensar uma União Europeia para um mundo geopolítico novo.A paralisia da integração europeia é a prova mais concreta desta realidade. Ao longo de décadas o continente avançou. Certamente em passo hesitante, mas não por isso menos decisivo. Do Conselho da Europa às Comunidades Europeias, do fracasso da Comunidade Europeia de Defesa à União Europeia, do colapso da Constituição ao Tratado de Lisboa. Cada fase foi marcada por compromissos e recuos, por momentos de persuasão, de transformação de mentalidades e de alinhamento das estruturas às grandes mudanças. Uma coreografia lenta em que alguns resistiram à fantasia do fim da história e à dependência cega do benfeitor transatlântico.Hoje, uma Europa federal não está em cima da mesa. Não há, nem está para haver, um Compromisso do Connecticut – proposto na altura por Roger Sherman, um dos pais fundadores dos Estados Unidos – que instituísse uma Câmara dos Representantes com deputados proporcionais à população e um Senado com 2 senadores por cada um dos 27 Estados-Membros. Também não está uma emissão de dívida conjunta estrutural – Merz recusou-a – ou uma verdadeira defesa comum – Rutte renega-a. Habituámo-nos, portanto, a falar de uma Europa a várias velocidades. Uma Europa que acredita que a heterogeneidade pode até ser uma vantagem.As iniciativas multilaterais confirmam este raciocínio. Do E6 – França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Polónia e Espanha – na esfera económica ao E3 – França, Alemanha e Reino Unido – na esfera securitária, passando pelo isolamento do triunvirato iliberal conformado pela Hungria, Eslováquia e cada vez mais a Chéquia. Desta forma, cada bloco transforma-se num núcleo capaz de progredir sem depender da unanimidade. Múltiplos núcleos, camadas externas, mas um eixo transversal de valores – alheio à cooperação reforçada – que não se podem aplicar apenas aos países candidatos: terão necessariamente de orientar a atuação de todos os Estados-membros. Mas existem perigos óbvios. Nem a Ucrânia pode vir a ser um Estado-membro de segunda classe, nem a sobreposição de tratados, conselhos e coligações pode criar uma complexidade labiríntica que afaste os europeus da União e impeça os líderes europeus de tomar decisões fundamentais e inadiáveis, da defesa comum ao Estado de Direito. O compromisso entre velocidade e inclusão definirá o futuro da UE, mas também poderá fomentar a sua desintegração.Enquanto a Europa ensaia o seu Grito do Ipiranga – o ano passado foi o ano da defesa, este será o da competitividade, segundo o Presidente do Conselho Europeu – a América de Trump combina a exploração com a humilhação dos seus aliados, consolidando uma diplomacia de canhoneira, tanto económica como militar. Apesar da narrativa avançada pelo subsecretário da Defesa dos EUA, Elbridge Colby, sobre uma NATO 3.0, para os cidadãos europeus – ainda que não para muitos dos seus líderes – a realidade é óbvia. Grande parte da população já não vê os EUA como aliado, mas como potencial adversário. A autonomia transformou-se numa urgência estratégica. Marco Rubio passou uma mensagem mais moderada do que J.D. Vance. Mas Munique ofereceu um degelo, não uma reconciliação. Continua a ser claro aquilo que somos e aquilo que a Administração Trump quer que sejamos, com as visitas posteriores a Bratislava e Budapeste. A questão é simples. A resposta nem tanto. Conseguiríamos sobreviver sem os EUA? Esta pergunta define a nova realidade europeia, da inteligência artificial à indústria de defesa, da competitividade à cloud. Tudo o que a Europa fizer, cada decisão de integração económica ou militar, terá de responder a esta lógica. A retórica externa não substituirá a autonomia interna.Figuras como Merz ou Macron, Starmer ou Von der Leyen, projetaram a Europa a partir desta premissa. Merz sublinhou em Munique que mesmo os EUA não possuem poder suficiente para dirigir a ordem internacional unilateralmente. Defende, aparentemente, uma integração nuclear parcial com a França, respeitando os limites impostos pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear e pelo Tratado Dois-Mais-Quatro, que definiu as condições para a reunificação alemã. A fórmula assenta numa maior coordenação política entre Paris, Londres e Berlim, à semelhança da Declaração de Northwood, oferecendo garantias em defesa dos interesses vitais europeus. Macron, importa dizê-lo, defende a autonomia estratégica quando lhe convém, como confirma o Acordo com o Mercosul, mas sustenta igualmente que a Europa tem de falar por si e agir em conformidade com os seus próprios interesses. Nesse quadro, propõe a abertura de um canal de comunicação com a Rússia para alcançar um acordo de paz e redesenhar a arquitetura da segurança continental.O objetivo é claro: reduzir a dependência de Washington, preservar alianças estratégicas e criar um espaço europeu autónomo de decisão. Contudo, a dispersão do bloco ocidental favorece potências emergentes como a China, paradoxalmente vista por muitos como potencial parceira da Europa, apesar do seu apoio crescente ao esforço de guerra russo.Impõe-se, portanto, um duplo reconhecimento. A União deve aceitar, necessariamente, a sua diversidade, transformá-la em motor de inovação e soberania e criar núcleos capazes de avançar sem esperar unanimidade. Mas também deverá responsabilizar aqueles que ambicionam destruí-la desde dentro. Entre estas duas dimensões, a Europa enfrenta uma escolha que exigirá mais do que reuniões em castelos ou tertúlias em Munique: exigirá decisões difíceis e relembrar ao Presidente dos Estados Unidos que os europeus proporcionam grande parte da infraestrutura legal e física que permite aos Estados Unidos projetar força a nível global.
