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Cocktail Molotov: e agora?

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30.03.2026

O aparente consenso do povo português em relação aos temas da vida é todos os anos desmentido por milhares de pessoas que saem à rua por todo o país. A suposta unanimidade é desmascarada, ano após ano, por uma multidão que se manifesta a favor da dignidade da vida humana, em todas as suas fases.

Apesar de o aborto “há muito estar resolvido” e da eutanásia estar a “meras tecnicidades” de ser aprovada, uma parte considerável do povo português não desiste de se fazer ouvir.

Por tudo isto, no passado sábado, dia 21, milhares de pessoas decidiram marchar por todo o país em defesa dos valores pró-vida. Em Lisboa, cerca de 4 mil pessoas manifestaram-se desde o Largo Camões até à Assembleia da República, onde, com cartazes, palavras de ordem e música, se propuseram a demonstrar que a cultura do descarte está errada. Homens, mulheres, novos e velhos, sozinhos ou em família, decidiram marchar por esta causa que, acima de tudo, é humana.

No entanto, à chegada à Assembleia da República houve uma tentativa de atentado contra a Marcha Pela Vida. A proposta de vida e esperança atormentou um grupo de pessoas que, não se acanhando com a presença de mulheres, crianças ou bebés, lançou um cocktail molotov para a multidão. O engenho explosivo foi atirado para atingir alguém. Não acendeu, mas era suposto ter acendido. A gasolina foi derramada em cima de crianças e mulheres, mas podia ter-se transformado em fogo e morto alguém. Podíamos estar a falar de mortes numa manifestação pacífica e ordeira.

Importa ser claro: o que aconteceu foi uma tentativa de atentado terrorista contra a Marcha Pela Vida. Qualquer pretensão de reduzir este acontecimento a um mero acaso corre o risco de se transformar em cumplicidade.

Quem atirou aquela garrafa planeou que o ia fazer e tinha a intenção de, entre a multidão, causar algum dano. Para além disso, quem atirou aquela garrafa sabia onde estava e o que estava ali a acontecer. Sabia que ainda existem pessoas a favor da vida – em todas as suas fases. 20 anos e 300 mil abortos depois. Sabia que ainda existem pessoas dispostas a cuidar de quem não tem esperança e não vê valor na sua vida. Sabia que estas pessoas decidem defender a causa da vida, mesmo sendo constantemente difamadas e menosprezadas por tal.

Este é um acontecimento que nos deve preocupar mais do que os órgãos de comunicação social nos querem fazer parecer. Por isso, é urgente retirar três ilações fundamentais:

Em primeiro lugar, é fulcral que as autoridades competentes atuem conforme a realidade. Só um laivo ideológico ou qualquer forma de condicionamento político fará com que este homem (e o grupo que agiu com ele) não seja condenado nos termos da lei.

Esperamos, e apelamos, para que não haja dois pesos e duas medidas para casos como este e que o Código Penal português seja aplicado em toda a sua extensão. O enquadramento ideológico-político não pode, de modo algum, condicionar a aplicação do Direito. A justiça deve ser cega, especialmente em casos como este, onde a falta de condenação implica um sinal político claro.

Em segundo lugar, tornou-se claro que a impunidade da extrema-esquerda em Portugal tem de acabar. O mito de que o único perigo real à democracia e à ordem social tem origem na extrema-direita e nos seus aliados deve ser redondamente contrariado.

A extrema-esquerda é perigosa, intolerante e, como vimos, não descarta a utilização da violência física para silenciar a oposição. A extrema-esquerda não impõe limites à guerra político-ideológica. Se tivesse de morrer um bebé na Marcha Pela Vida, que morresse. Para a extrema-esquerda há valores que não podem ser defendidos, há posições que não podem ser assumidas. E, sem sombra de dúvidas, os valores da Vida encontram-se neste catálogo.

Esta intolerância não é nova: a intimidação constante, o menosprezo sobranceiro e a leviandade com que qualquer pessoa se depara ao defender os valores pró-vida já adivinhavam esta realidade. Todos os anos, a Marcha Pela Vida é apupada, insultada e menosprezada. Quem, mesmo que timidamente, se oponha à eutanásia ou ao aborto é automaticamente colocado numa lista de intolerantes que devem ser silenciados. Isto deve acabar, em prol do debate honesto e construtivo a que qualquer sociedade deve aspirar.

Por último, e mais importante: este facto ajuda-nos a concluir que estes temas não estão decididos. Que a vida não se discute com superficialidade, precipitação ou ligeireza. Os temas da vida são complexos e não têm donos. A constante diabolização dos valores pró-vida não favorece ninguém e todo o espetro político deve repudiar essa abordagem.

Os números da Marcha Pela Vida mostram-nos que existem pessoas disponíveis para defender este tema. Que existem jovens e famílias de todo o país que não aceitam a falsa liberdade que é vendida à pressa. Que há espaço para o cuidado dos doentes terminais e das mulheres desesperadas. Ser a favor da vida não é ser fascista, insensível ou ditador. É ter uma visão humana do problema. É levar esperança onde ela não existe. É levar cuidado onde este é mais preciso.

Talvez existam maneiras mais fáceis de resolver o problema dos doentes terminais ou das mulheres desesperadas e sem condições para a maternidade. Mas há uma geração que ainda se bate pela vida. E não é admissível que seja ameaçada, coagida ou condicionada por fazê-lo.

Por isso, é essencial que os temas da vida sejam discutidos. Que se resista à tentação de assumir a derrota e que não se dê a batalha como perdida. Porque, acima de tudo, é uma batalha civilizacional e humana. Temos de discutir os factos, as perceções e os valores que queremos na nossa sociedade. Temos de dar voz aos debates profundos que verdadeiramente interessam. A vida – desde a sua conceção até à morte natural – é um deles e não pode ser discutida à pressa, com ódio ou com tiques autoritários.

Através do atentado à Marcha Pela Vida percebemos que há uma nova Geração Pró-Vida a crescer. E essa geração tem de ser ouvida e protegida. Mesmo que o próximo cocktail molotov rebente.


© Expresso