Eleições na Bulgária empatam destino europeu
Há justamente uma semana, a Europa experienciou uma onda de entusiasmo que foi difícil de disfarçar. A derrota de Viktor Orbán na Hungria parecia anunciar um reequilíbrio político no interior da União Europeia, ou uma correção de trajetória num espaço que, nos últimos anos, se habituou a lidar com focos internos de dissonância. Foi muito tentador, principalmente entre os mais crentes no projeto europeu, ler este resultado eleitoral como o início de uma tendência. Porém, a política europeia, e em especial a da Europa de Leste, raramente se presta a leituras lineares. A eleição deste domingo (19) na Bulgária, que levou à vitória de Rumen Radev, serve de lembrete imediato: o espaço pós-soviético continua a ser definido por ambivalências profundas, onde avanços e recuos coexistem, muitas vezes paradoxalmente.
Ao contrário do que sucedeu na Hungria, onde a vitória de um candidato mais alinhado com Bruxelas foi interpretada como uma inflexão clara, a eleição búlgara introduz um elemento de incerteza no xadrez europeu. Radev não é um outsider súbito, nem um fenómeno improvisado. Antigo Presidente da República entre 2017 e 2026 e General da Força Aérea, construiu ao longo dos anos a imagem de uma figura institucional, mas também de uma voz crítica face às elites políticas e às dinâmicas europeias que considera excessivamente intrusivas.
A sua posição em relação à Rússia tem sido um dos elementos mais distintivos do seu percurso político. Embora não se apresente como um aliado incondicional de Moscovo, Radev tem sido consistente na crítica às sanções europeias e na oposição ao envio de apoio militar à Ucrânia, defendendo antes uma abordagem mais pragmática e menos confrontacional. Essa ambiguidade entre a pertença europeia e a abertura ao diálogo com Moscovo tornou-se uma das marcas da sua candidatura. Radev acredita ser o elemento-chave para o desbloqueio da relação de tensão entre Bruxelas e Moscovo, mas não será essa apenas uma forma eleitoralmente vendável de dizer que está disponível para alinhar com o antigo Orbánismo?
A decisão de abandonar a presidência para liderar a coligação Bulgaria Progressista não foi apenas um gesto político arriscado, mas também um sinal da profundidade da crise interna búlgara. O país chegou a estas eleições após anos de instabilidade crónica, com sucessivos governos incapazes de se manterem e uma crescente perceção pública de corrupção e captura do Estado por redes oligárquicas. Radev soube capitalizar esse desgaste, apresentando-se como garante de estabilidade e regeneração institucional. Recorde-se que a Bulgária é o país mais pobre da União Europeia.
O percurso de Radev como persona política ajuda a explicar este resultado eleitoral (cerca de 44% dos votos). Numa sociedade marcada por desigualdades persistentes, desconfiança nas instituições e fadiga eleitoral (oito eleições em cinco anos), discursos que prometem ordem, previsibilidade e soberania encontram terreno fértil. A isso soma-se um fator estrutural mais profundo: a relação histórica da Bulgária com a Rússia.
Ao contrário de outros países do antigo bloco de Leste, a Bulgária foi um dos aliados mais próximos de Moscovo durante largas décadas. Sob o regime de Todor Zhivkov, o alinhamento com a União Soviética foi profundo e prolongado, deixando marcas que perduram na cultura política e nas perceções sociais dos búlgaros. A Rússia não é vista apenas como uma potência externa, mas como um ator historicamente ligado à identidade nacional búlgara. Não apenas em Sófia, como noutras capitais de Leste, esta é uma ambivalência, qual cicatriz na pele destes povos, que continua a moldar o debate político em pleno 2026.
A transição pós-1989 não eliminou o legado paternalista da Rússia nesta zona do planisfério. Redes de influência, dependências económicas (como no setor energético), afinidades culturais. Tudo isto se manteve, pelo menos parcialmente. É rigorosamente impossível não reinterpretar quase constantemente o passado de subjugação ao comunismo soviético nestes países, porque esse passado, pura e simplesmente, não desapareceu na sua totalidade.
É esta continuidade latente que está refletida na eleição de Radev. A sua vitória não significa necessariamente uma viragem abrupta da Bulgária, de Bruxelas para Moscovo, mas traduz uma predisposição histórica para um certo equilíbrio ambíguo entre estes dois polos de poder.
Do ponto de vista europeu, as implicações desta eleição são claras e imediatas. Num momento em que a União Europeia procura manter uma frente coesa face à guerra na Ucrânia, a eleição de um líder abertamente crítico das sanções à Rússia e da estratégia europeia levanta dúvidas sobre a capacidade de decisão conjunta. A Bulgária poderá não assumir o papel de bloqueio sistemático que caracterizou a Hungria de Orbán, mas tende a introduzir hesitação, atraso ou resistência em dossiers considerados sensíveis.
Em áreas como a política energética, o apoio militar e financeiro à Ucrânia e o aprofundamento das sanções, poderá tornar-se mais difícil chegar a um consenso. E mesmo sem que se recorra ao veto, a mera existência de posições divergentes enfraquece a coerência da União Europeia em termos de política externa.
Importa, ainda assim, evitar algumas leituras simplistas. A Bulgária é um membro da União Europeia, e isso impõe naturalmente limites claros à margem de manobra do governo de Radev. Por isso, o mais provável é uma política externa marcada por pragmatismo e ambiguidade: simultaneamente longe de uma rutura frontal com Bruxelas, mas perto de uma postura menos alinhada comparativamente com o passado. Ao mesmo tempo, e apesar da percentagem expressiva da vitória do Bulgaria Progressista, Radev não deverá conseguir mais do que 111 dos 240 lugares do parlamento, obrigando a entendimentos com outras forças políticas. O antigo primeiro-ministro, líder do partido conservador, terá conseguido cerca de 16% dos votos, imediatamente seguido da coligação liberal, que conseguiu pouco mais de 14%. Obrigado à conversação com estes partidos, Radev poderá ter de moderar parte do seu ceticismo em relação à Europa. Mas isso, para já, é apenas uma incógnita.
Neste quadro global, há uma ironia inevitável. No espaço de uma semana, a Europa passou de um momento de aparente convergência para um novo sinal de fragmentação. Mas essa oscilação não é excecional. Antes, é a norma de uma parte da Europa onde o passado continua a interferir no presente.
A Bulgária de hoje confirma a célebre intuição de William Faulkner: “o passado não está morto, porque nem sequer é passado”. Porque as urnas não falaram apenas sobre as condições do presente, mas sobre uma memória histórica que continua a moldar escolhas e a limitar possibilidades.
Se a eleição húngara convidava ao entusiasmo, a búlgara exige cautela. Entre Budapeste e Sófia, a Europa reencontra-se com aquilo que sempre foi: um espaço de tensões, de equilíbrios instáveis e de histórias e estórias que persistem.
