Chernobyl (1986-2026)
Há datas que não se limitam a marcar o calendário, reorganizam-no. O dia 26 de abril de 1986 é uma dessas raras fronteiras históricas. Uma fronteira que marca o antes e o depois de Chernobyl. Para o mundo, este foi o dia em que a promessa tecnológica soviética revelou da forma mais brutal possível as suas fragilidades e deficiências. Para Mikhail Gorbatchov, então líder da União Soviética, foi muito mais do que um desastre nuclear. Chernobyl foi um turning point: para o líder, para o país, para a Europa e para o mundo.
Não é exagerado afirmar que existe um Gorbatchov pré-1986 e um Gorbatchov pós-1986. Porque, até 1986, as reformas que procurou introduzir no sistema soviético moviam-se, muito contida e cautelosamente, dentro de um certo horizonte de mero ajustamento. O desastre de Chernobyl destruiu essa ilusão. Não apenas pela dimensão da catástrofe, mas pela forma como ela foi gerida. O silêncio inicial, a relutância em informar, a tentativa quase instintiva de preservar a aparência de controlo.
Este foi o momento que Gorbatchov percebeu que o problema da União Soviética não residia apenas na sua ineficiência económica ou no seu atraso tecnológico, mas numa patologia muito mais profunda: uma opacidade estrutural do regime. Por isso, o conceito de glasnost adquire rapidamente o estatuto de uma palavra de ordem. Talvez mais do que isso, adquire o estatuto de uma urgência nacional.
Glasnost significa transparência, ou abertura. Gorbatchov introduz no projeto reformista, até então somente conhecido pela sua ambição de restruturação económica (a perestroika), esta esfera ligada à necessidade de decompor um sistema, político e social, excessivamente encoberto, obscuro, hierárquico, tenebroso. Foi este sistema e esta cultura de segredo que conduziu a Chernobyl. Foram as decisões tomadas longe da responsabilidade pública, a informação retida como instrumento de poder, as vidas humanas subordinadas à lógica da preservação do Estado.
Numa palavra, chegou-se a Chernobyl, naquele fatídico dia, por medo.
Mas se Chernobyl foi um turning point para a liderança soviética, foi também um momento fundador de uma nova consciência global. Pela primeira vez, tornou-se evidente que certas catástrofes não conhecem fronteiras. A radiação não respeita soberanias, não distingue sistemas políticos, não se adapta a ideologias. O acidente de abril de 1986 obrigou o mundo a confrontar-se com a dimensão transnacional do risco e com a consequente necessidade de cooperação internacional em matérias que, até então, eram frequentemente tratadas como questões de segurança nacional.
Quarenta anos volvidos, esta lição ganha uma atualidade inquietante. A guerra na Ucrânia voltou a trazer Chernobyl para o centro da geopolítica europeia, não apenas como lugar na Terra, mas como símbolo. A ocupação da zona de exclusão por forças militares no início deste conflito não foi apenas um episódio estratégico, mas um gesto carregado de significado histórico. De repente, o mundo confrontava-se novamente com a possibilidade de um acidente nuclear em contexto de guerra.
Esse momento teve algo de profundamente perturbador: como se a história, longe de se encerrar, insistisse em reaparecer nos pontos geopolíticos que têm maior poder para nos deixar a todos, homens e mulheres, numa posição mais vulnerável. Desde fevereiro de 2022, Chernobyl deixou de ser apenas memória para se tornar uma possibilidade, outra vez. E com isto regressaram também os medos, os traumas e as perguntas que julgávamos, talvez ingenuamente, resolvidas.
O que aprendemos com Chernobyl?
Aprendemos, em primeiro lugar, que a tecnologia não é neutra quando inserida em sistemas políticos que privilegiam o segredo sobre a responsabilidade. Aprendemos também que a gestão da informação pode ser tão determinante quanto a gestão da crise. E aprendemos que a confiança, um elemento tantas vezes invisível, é, em momentos de catástrofe, um dos recursos simultaneamente mais escassos e mais necessários.
Porém, é possível que a lição mais duradoura de Chernobyl seja outra: a de que a transparência não é apenas um valor democrático, mas uma forma de proteção coletiva. Num mundo onde os riscos são cada vez mais complexos e interdependentes, a ocultação não protege, expõe!
Chernobyl foi, nesse sentido, uma tragédia profundamente humana. Não só pelas vidas perdidas ou afetadas, mas também pela forma como revelou os limites de um sistema incapaz de reconhecer os seus próprios erros. O paradoxo de Chernobyl é que aquele desastre obrigou Gorbatchov a confrontar-se com um sistema septuagenário, contribuindo para uma transformação que acabaria por salvar o mundo de uma guerra que nunca passou de fria. Este resultado pode ter ultrapassado as intenções iniciais do líder soviético, mas não o tornam menos responsável por um mundo mais pacífico às portas dos anos 1990.
Há, por fim, uma dimensão quase íntima na memória de Chernobyl. Para muitos, Chernobyl permaneceu como uma imagem: o reator aberto como uma ferida que não sara, as cidades abandonadas, o silêncio pesado de um território que já não pertence inteiramente ao Homem (por sua culpa). É esta memória que continua a interpelar-nos em 2026.
Hoje, mais do que nunca, Chernobyl não é passado. É um aviso. É uma exigência.
