menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Syriana

9 0
yesterday

Syriana é o título de um filme hollywoodesco, evocando a ideia de reorganizar o Médio Oriente em função dos interesses estratégicos ocidentais, principalmente dos Estados Unidos. O que hoje se observa é uma reconfiguração progressiva e irreversível dos mercados energéticos globais. Como escreve Professor Miguel Monjardino na sua crónica, o que gravita em torno do Irão ultrapassa o ruído mediático. Existe uma narrativa pública de negociação, mas os movimentos e encontros mais relevantes ocorrem num plano onde a diplomacia cede lugar à lógica do controlo energético.

A leitura convencional continua presa a um confronto entre potências, deixando de lado os mecanismos menos visíveis que estruturam o petróleo e o gás. O caso dos Emirados Árabes Unidos ilustra bem esta transformação. Durante anos, Abu Dhabi expandiu a sua capacidade de produção enquanto permanecia limitado pelas quotas da OPEP, aceitando esta tensão como parte de um sistema que, no essencial, garantia estabilidade no transporte e na exportação. Contudo, este equilíbrio revela-se agora frágil.

É neste contexto que a saída ganha significado, não como sinal de desacordo entre Riade e Abu Dhabi, mas antes como expressão de uma divergência de interesses estratégicos. A liderança saudita terá de manter o mecanismo da OPEP funcional para assegurar a coesão do mercado, numa sequência que começou com a saída do Qatar em 2024. Ainda assim, a decisão dos Emirados Árabes Unidos dificilmente teria ocorrido sem o conhecimento a priori da Arábia Saudita e dos Estados Unidos. Não é claro até que ponto Washington procura influenciar a OPEP, mas acompanha uma dinâmica em que parte do setor energético americano tende a favorecer um mercado menos regulado.

O facto é que a OPEP encontra-se perante interesses cada vez mais difíceis de conciliar. A transição energética continua a avançar no discurso, mas a realidade é influenciada pelo controlo de corredores logísticos e de pontos de estrangulamento marítimo. O Estreito de Ormuz tornou-se um símbolo, onde o duplo bloqueio, as pressões estratégicas e a presença naval americana convergem para introduzir fricção no fluxo e volatilidade no mercado.

A variável iraniana ajuda a perceber a dimensão deste desfasamento. Uma eventual reintegração do Irão poderia acrescentar entre 1,5 e 2,5 milhões de barris por dia a um mercado global próximo dos 100 milhões. À partida, isso deveria exercer pressão descendente sobre os preços. Ainda assim, o impacto concreto permanece incerto, na medida em que depende da reação de outros produtores, da evolução da procura e, sobretudo, da estabilidade das rotas de circulação. Quando o fluxo é incerto, o preço passa a refletir não só a relação entre oferta e procura, mas também o risco logístico e a possibilidade de interrupção.

A fragmentação do mercado por níveis de risco altera a distribuição do poder. O foco desloca-se da posse de reservas para a capacidade de garantir a sua circulação. Portanto, a arquitetura institucional, pensada para um contexto estável, perde eficácia. Neste cenário, as quotas deixam de coordenar e passam a limitar.

O mapa do poder tende, assim, a reorganizar-se em função de trajetórias. A China reforça ligações através da Belt and Road Initiative e outros projetos. A Turquia consolida o seu papel como eixo entre o Cáspio e a Europa, apoiada por múltiplas infraestruturas energéticas como o Gasoduto Trans-Anatoliano e o Gasoduto Trans-Adriático. Por sua vez, a Rússia e o Paquistão aprofundam corredores alternativos que ligam o Norte ao Índico, com pontos como Gwadar a ganharem relevância.

Enquanto países como a Síria, o Iraque e a Líbia refletem as cicatrizes de décadas de intervenção, o coração do poder petrolífero migrou para os pontos de estrangulamento marítimo. Nesta nova ordem, o petróleo e o gás continuam a sustentar a economia global, mas a lógica que os organiza tornou-se menos previsível e mais dependente da capacidade de operar na incerteza.

O mundo de Syriana era complexo, mas legível dentro de uma ordem estável e hegemónica. O que emerge hoje é uma realidade distinta, em que os Estados Unidos redefiniram a sua posição, convertendo a multipolaridade numa vantagem tática. Como potência focada no controlo de fluxos e infraestruturas críticas – dos terminais do Golfo do México à influência em Fujairah – Washington abandonou a gestão da ordem pela gestão da fluidez. No novo xadrez energético, a geoeconomia é a soberania plena.


© Expresso