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Memória e esquecimento em "O agente secreto": a ditadura na vida banal

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A universalidade de “O agente secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em língua não inglesa, não está na reconstituição explícita da repressão do regime militar, mas na maneira como a ditadura se infiltrava na vida cotidiana, no aparentemente insignificante, ou seja, naquilo que Milton Santos, nosso grande geógrafo, chamou de “vida banal”. É justamente nesse território do dia a dia — feito de gestos mínimos, silêncios, ruídos e deslocamentos — que o filme constrói sua crítica política mais profunda.

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A vida banal é o chão real da história. O cotidiano é o espaço vivido onde as grandes estruturas — o Estado, o mercado, a globalização, a violência institucional — se materializam no corpo, na circulação, nas relações humanas. Ao escolher o Recife de 1977 como cenário, “O agente secreto” transforma a cidade em laboratório dessa experiência: ruas, postos de gasolina, cabines de projeção, apartamentos e corredores não são meros cenários, mas dispositivos de poder, vigilância e memória. O regime militar, à época, ditava a atmosfera do cotidiano.

No filme, a ditadura não se impõe apenas por prisões, torturas ou discursos oficiais. Ela aparece na sua relação com a atmosfera do espaço........

© Estado de Minas