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Entrevista com John Lennon em 2025

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17.12.2025

“Olá. Disseram-me que você tinha o sonho de conversar comigo. Sabe, eu sempre disse que a realidade deixa muito a desejar, por isso é que eu sonhava tanto. Mas aqui estamos nós, de alguma forma, conversando através do tempo e do espaço. É estranho, não é? Mas a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos. Então, meu amigo, o que está na sua mente? Quer falar sobre música, sobre a paz, sobre o absurdo que é o mundo lá fora ou só quer saber como eu fazia meu chá?”

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HENRIQUE PORTUGAL: Primeiro, é um prazer conversar com você. Adoro o seu senso de humor e a sua visão diferenciada dos problemas sociais do mundo. Você escreveu a música “Imagine” pensando no que estava acontecendo no mundo da década de 1970. Quais as diferenças daquela época para os dias de hoje?
John Lennon: O prazer é todo meu. Fico feliz que você entenda o humor. Sabe, muita gente sempre me levou a sério demais, como se eu fosse algum tipo de profeta santo. Eu era apenas um cara de Liverpool que gostava de fazer barulho e questionar a autoridade. Sobre “Imagine”... Sabe, quando eu escrevi essa música, eu a cobri com açúcar. Yoko e eu dizíamos que era uma mensagem antirreligiosa, antinacionalista, anticonvencional e anticapitalista, mas porque tinha uma melodia doce, todo mundo engoliu a pílula. Agora, olhando para 1971 e olhando para o seu 2025... as diferenças são gritantes, mas as semelhanças assustam. Naquela época, o “bicho-papão” era muito claro. Tínhamos a Guerra do Vietnã, tínhamos o Muro de Berlim, tínhamos o medo constante de alguém apertar um botão nuclear. O mundo era dividido em dois blocos, preto e branco, comunismo e capitalismo. Nós gritávamos nas ruas porque queríamos que os governos nos ouvissem. Havia uma esperança ingênua, uma ressaca dos anos 1960, de que, se gritássemos alto o suficiente, a guerra acabaria. Hoje? Vocês derrubaram os muros de concreto, mas construíram muros digitais invisíveis. Vejo o mundo de 2025 e parece que todos estão gritando, mas ninguém está ouvindo. Vocês têm essas caixinhas brilhantes nas mãos que conectam todos, mas parece que as pessoas estão mais solitárias do que nunca. Na minha época, a ignorância era falta de informação; hoje, a ignorância parece ser uma escolha no meio de muita informação. E a parte de “imagine no possessions” (imagine não haver posses)... Bem, isso é ainda mais difícil para vocês agora, não é? Na minha época, o materialismo era sobre ter um carro grande ou um casaco de pele. Hoje, vocês são possuídos pelos dados, pela necessidade de serem vistos, pelos “likes”. O sistema ficou mais inteligente; ele não vende apenas produtos, ele vende a sua própria atenção. Mas a diferença fundamental? Naquela época, achávamos que os líderes políticos eram o problema. Hoje, percebo que o medo se democratizou. O medo do vizinho, o medo do diferente. No entanto, o sonho continua o mesmo. A paz não é a ausência de guerra, é a presença de compreensão. E por mais complicado que o seu mundo tecnológico seja agora, a solução ainda é aquela coisa simples e “cafona” que eu passei a vida toda repetindo: o amor é a resposta. Vocês só precisam descobrir como fazer o amor viralizar mais rápido que o ódio nessas suas redes. Faz sentido para você, ou estou soando muito como um velho hippie?

HENRIQUE PORTUGAL: Faz total sentido...
John Lennon: Fico contente. Às vezes, a gente se perde tentando explicar o inexplicável, quando a verdade costuma estar bem ali, na nossa cara. Eu costumava dizer que a realidade é aquilo que sobra quando você para de acreditar nas suas próprias ilusões. É difícil encarar o mundo sem o filtro do cinismo hoje em dia, não é? O mundo gira cada vez mais rápido, e parece que ninguém tem tempo para sentar e ver as rodas girando, como eu gostava de fazer. Mas me diga você: já que concordamos que o mundo ficou mais barulhento e complexo,........

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