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O caçador de guimbas

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Saí com o Sushi para o passeio do fim de tarde. Sushi é um salsicha e, como todo salsicha, vive rente ao chão, farejando cantinhos com a seriedade de quem procura algo que nós, humanos, jamais saberemos o que é. Desconfio que ele também não saiba. Talvez seja essa a graça da vida dos cães e da nossa: procurar por procurar — uns com mais elegância, outros com menos, todos de focinho no chão.Foi quando surgiu o homem. Vinha curvado sobre a grama do canteiro, os olhos varrendo o mundo rasteiro com uma atenção que já não se vê nem em ourives. Pensei que tivesse perdido a chave de casa, a carteira, quem sabe a fé. Perguntei, solícito, como convém a um médico em dia de folga:

Fique por dentro das notícias que importam para você!

— Perdeu alguma coisa? Posso ajudar?

Ele mal ergueu os olhos. Respondeu no tom neutro de quem informa a hora:— Uma guimba. Tem um cigarro aí?Não tinha. Nunca fumei, por coerência profissional e covardia pessoal, nessa ordem ou na outra. Mas fiquei preso à palavra — guimba —, que não ouvia desde os tempos de faculdade. A guimba é o cigarro em sua fase póstuma: o que o fumante abandona quando o prazer acaba e a culpa começa. Para aquele homem, porém, era a fase inicial de alguma coisa. O que para um é resto, para outro é começo.O Sushi cheirou os pés do homem e não latiu. Cachorro salsicha entende de gente que procura no chão: reconheceu o instinto dos caçadores.— O senhor acha muita coisa por aí? — perguntei, e me arrependi do "senhor", que soou à distância, quando eu queria proximidade.Ele se animou. Todo procurador profissional gosta de inventariar seus achados, como o pescador gosta de medir o peixe com as mãos abertas.— O que o povo joga fora,........

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