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Uma ideia com futuro

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Assumir a importância da cultura não é um luxo, é uma escolha política. E, mais do que isso, é uma escolha sobre o tipo de país que queremos ser.

Sem cultura, ficamos mais pobres, não apenas economicamente, mas, acima de tudo, na capacidade de pensar, de questionar, de imaginar alternativas. A iliteracia não é neutra. Produz silêncio e conformismo. E, em certos contextos, serve agendas que se querem impor, agendas que preferem cidadãos adormecidos a cidadãos críticos.

É por isso que importa olhar com atenção para o que vai acontecer no Porto este ano. A responsabilidade cultural, surge aqui assumida por uma entidade privada, com ambição pública.

A Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara Municipal do Porto, apresentou esta semana no Rivoli o Babell, um evento que parte de uma ideia simples e radical: colocar o livro no centro da vida da cidade. Não como objeto simbólico, mas como instrumento real de participação.

Muito se dirá — e bem! — sobre os nomes que compõem o programa: de Salman Rushdie a Margaret Atwood, de Julian Barnes a Javier Cercas, de Lídia Jorge a João de Melo, de Conceição Evaristo a Milton Hatoum, de Ana Vidigal a Daniel Mordzinski, entre tantos outros. Mas o essencial não está apenas no cartaz, está sim no gesto.

E o gesto é este: para aceder a qualquer sessão, compra-se um livro. Nada mais simples, nada mais eficaz.

Num tempo em que tanto se fala de acesso, democratização e políticas públicas, Babell propõe uma solução concreta: levar pessoas às livrarias, pôr livros nas mãos, criar uma relação direta entre cultura e território. Sem intermediações, sem abstrações.

Rui Couceiro, o comissário do evento, não por acaso um escritor portuense, afirma: “Programar é a arte do possível. Mas também é, por vezes, a arte do impossível. O que aqui se está a fazer tem uma ambição que advém da ousadia visionária da família Pedro Pinto.”

E é o responsável máximo da Livraria Lello, Pedro Pinto, que reforça esta ideia de que se está a fazer um caminho assente na ideia de responsabilidade social, de construção de futuro: “O livro pode ser uma arma cultural, uma ferramenta de transformação.”

É difícil dizer melhor, porque é exatamente isso que está em causa. Não um evento, mas uma ideia de cidade.

Imagino o Porto, na última semana de junho, em plena festa de São João, atravessado por leitores: pessoas com livros nas mãos, debaixo do braço, dentro de sacos, à espera de uma conversa, de uma leitura, de uma ideia. O livro como bilhete. Como pretexto. Como encontro.

Num tempo de discursos simplificados, de algoritmos que repetem e estreitam, de pressões que uniformizam, este gesto tem uma dimensão que ultrapassa a programação cultural. É uma forma de resistência.

E talvez seja isso que mais importa: lembrar que a cultura não é decorativa, é estrutural.

E que, quando alguém decide investir nela com seriedade, visão e risco, o mínimo que podemos fazer é reconhecer e, já agora, participar.

Festejemos, então, esta ideia.

P.S. — Que Saramago se torne leitura opcional nas escolas por ser exigente é apenas mais um sinal do estado da nação e de uma estratégia paupérrima para promover cultura e pensamento.


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