Uma carta a António José Seguro
No passado domingo, no final da expressiva noite eleitoral, ocorreu-me que a vida dá muitas voltas. É bem verdade, a vida tem o condão de nos surpreender e abalar as certezas que, tantas vezes, não resistem ao tempo. Penso no Presidente da República eleito, António José Seguro. E no que está quase a deixar de o ser, Marcelo Rebelo de Sousa. No que os une, e no que foi preciso acontecer para chegar até aqui.
Marcelo será sempre o meu professor de Ciência Política e Direito Administrativo, uma das pessoas que mais acreditou na minha juventude, impossível esquecer a sua recomendação para que eu fosse o aluno escolhido para ir à Universidade de Lovaina. Foi o Presidente das pessoas e da empatia que, infelizmente, não conseguiu transformar toda essa virtualidade num movimento de pensamento e ação consequente. Por vezes, falhou no pensamento. Noutras, na ação. E, em duas ou três ocasiões, no pensamento e na ação.
Mas o certo é que criou as sementes de uma ideia de esperança e decência que terá contribuído para o resultado de Seguro no passado domingo - dois terços da sociedade portuguesa votaram por uma ideia de Bem, de liberdade e fraternidade, de humanismo e democracia. É o legado de Marcelo, um movimento ou, se preferir, uma dinâmica organizada de esperança corporizada na descida da Avenida da Liberdade quando o país, da esquerda à direita, festejou os 50 anos do 25 de Abril.
Marcelo falhou, mas teremos saudades por ter sido Único. Não é possível sequer imitá-lo. Representou a República e fê-lo muito bem. Preparou-se toda a vida e soube estar à vontade nos salões de ricos e em cada divisão de pobres. Soube apanhar o comboio no apeadeiro da vida e entregou tudo o que tinha ao país.
Inesquecível quando caminhámos juntos na pandemia. Contribuiu para a autoestima do país, sem conseguir evitar o crescimento do ressentimento e do extremismo. A meu ver por ser o que é. Por ter na sua condição o que o fez único, mas também o que destruiu a possibilidade de travar os ventos do tempo: Marcelo é genuinamente alguém que está presente quando abraça, mas é um solista num........
