Kleber Mendonça e uma política do afeto
Toinho Castro — poeta e multiartista
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Diante da página em branco em que este texto se desenvolve, recordo que, lendo o livro Verdade tropical, de Caetano Veloso, esbarrei num comentário sobre Violeta Gervaiseau, irmã de Miguel Arraes, então exilada na França desde 1964, ano de triste memória, e que o recebia em Paris. "Ela nos acolheu com um misto de firmeza e carinho que só se encontra nos verdadeiros nordestinos", escreve Caetano. E esse comentário me remete imediatamente ao cinema de Kleber Mendonça.
Assistindo aos seus filmes, essa combinação delicada, de carinho e firmeza, transparece o tempo todo. Como um bordado que vai se enredando no tecido duro da realidade e que redime, a cada ponto, a própria vida, que luta ali na tela, em busca de sentido e justiça. Porque se muito se fala da dimensão política de filmes como Bacurau e O agente secreto, pouco se fala de um outro viés deveras importante. Se podemos dizer que O agente secreto é um filme político, é preciso que se diga, também, que há ali, sobretudo, uma política do afeto. Uma ordem do amor.
Vejo claramente em Dona Sebastiana, como já se sabe, magistralmente interpretada pela potiguar Tânia Maria, ao receber Marcelo, personagem de Wagner Moura, em sua casa, o espírito da........
