A venda da Justiça se desloca nas decisões seletivas de André Mendonça
A política partidária produz seus efeitos mais corrosivos justamente quando invade instituições cuja legitimidade depende da confiança pública. Dentro de um tribunal constitucional, ela altera o vocabulário, desloca prioridades e começa a organizar pessoas em campos adversários. A pergunta deixa de ser apenas o que dizem os autos e passa a incluir quem indicou o ministro, quem se beneficia daquela decisão e a qual grupo político ela oferece munição.
A Justiça perde centralidade. Torna-se quase uma nota de rodapé numa disputa que deveria permanecer do lado de fora do tribunal.
É sob esse risco que observo as decisões tomadas por André Mendonça no caso Banco Master. Em 1º de setembro, o ministro retirou o sigilo da Petição 16.662, aberta a partir de informações fornecidas pela Polícia Federal sobre uma suposta rede de influência de Daniel Vorcaro. Mendonça determinou ainda que os novos elementos fossem examinados pelo plenário do STF, publicamente e em sessão presencial. No despacho, sustentou que o interesse público das informações impedia a manutenção do sigilo.
O princípio é defensável. O problema começa na maneira como ele é aplicado. Uma coisa está cada vez mais comprovada: ninguém morre de tédio em Brasília.
A transparência escolhida
O material agora aberto contém informações graves relacionadas a Alexandre de Moraes. Mensagens apreendidas no celular de Vorcaro indicam contatos frequentes com o ministro e referências a intervenções pretendidas junto à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República. A investigação também alcançou contratos entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes. Reportagens publicadas em 1º de setembro informaram ainda que Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, intermediou contatos entre Vorcaro e Moraes e que houve pelo menos seis encontros entre ambos.
Tudo isso merece investigação rigorosa. Um ministro do Supremo não pode possuir imunidade factual contra perguntas apenas porque veste uma toga. Se Alexandre de Moraes precisa explicar encontros, mensagens, contratos ou qualquer intervenção relacionada a Vorcaro, que explique. Se houver indícios suficientes, que sejam apurados até o fim.
Minha crítica começa em outro lugar: na régua escolhida por André Mendonça para decidir o que deve ser exposto e o que continuará protegido pelo sigilo.
Enquanto essas páginas receberam luz integral, outro braço extremamente sensível das relações de Daniel Vorcaro com o poder político permanece submetido a tratamento muito diferente. Trata-se do financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Um relatório do Coaf revelou novo repasse de US$ 1,66 milhão ao fundo responsável pelo filme, realizado em setembro de 2025, oito dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar parcelas atrasadas. Os repasses identificados chegaram a US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 65 milhões na cotação da época. Há ainda mensagem posterior em que Vorcaro afirma ter liberado nova parcela.
Para o leitor contextualisar melhor: O exemplo mais impressionante é Parasita, de Bong Joon-ho: custou aproximadamente US$ 11,8 milhões, praticamente a mesma ordem de grandeza dos US$ 12,3 milhões mencionados no caso Dark Horse, e tornou-se um fenômeno mundial, arrecadando cerca de 21 vezes seu orçamento e vencendo quatro........
