A usina da vontade
Uma sociedade começa a entregar o futuro quando transforma o medo em argumento para a inação. No Brasil, a sucessão de crises, ameaças e mentiras produz esse efeito: gente capaz deixa de propor, comunidades reduzem o horizonte ao próximo susto, e o país passa a tratar a própria impotência como prudência. Esse recuo tem efeito político: reduz o número de pessoas dispostas a organizar uma resposta, cobrar instituições e defender as condições que tornam possível a vida comum.
Voltar ao passado é necessário para localizar responsabilidades, reconhecer erros e impedir que a memória seja falsificada. O problema começa quando a investigação se torna morada permanente e consome a energia que deveria orientar uma decisão no presente. Saber como chegamos aqui só cumpre sua tarefa pública quando nos ajuda a escolher o que faremos agora, com os recursos e limites que temos.
O que faço com minha força de vontade para mudar o país de hoje e aproximá-lo daquele que desejo para meus filhos e netos? Que parcela do meu tempo, do meu conhecimento e da minha coragem entrego a essa mudança? Que injustiça próxima posso enfrentar, em vez de apenas descrevê-la? Perguntas assim deslocam a vontade do terreno da intenção para o compromisso que pode ser visto e cobrado.
Força de vontade é a capacidade de sustentar uma finalidade quando o entusiasmo inicial diminui, ajustar o caminho diante dos erros e permanecer responsável pelo que se decidiu construir. Ela se aprende em atos repetidos: estudar quando seria mais fácil desistir, voltar a uma conversa difícil, defender alguém exposto, cumprir uma tarefa que ninguém aplaude. A perseverança dá duração ao propósito; a missão lhe dá direção.
Uma missão ganha peso quando ultrapassa o interesse individual e alcança a vida de outras pessoas. Quem ensina, cuida, escreve com honestidade, organiza um bairro ou enfrenta uma injustiça participa de uma obra que ninguém realiza sozinho.
Nada de valor coletivo chega pronto, sem custo ou sem renúncia: é preciso tempo, disciplina, alianças e a disposição de refazer o trabalho quando o resultado fica aquém do........
