Aniversário de Paulo Freire, educador universal
Paulo Freire estaria com 105 anos. Mais cento e cinco anos vão passar e não passará a sua obra em todas as gentes. Nascido no Recife em 19 de setembro de 1921, Paulo Freire superou a contradição de ser do Recife e de todas as cidades do mundo ao mesmo tempo. Muito além de Pernambuco, ele se tornou um homem sem fronteiras por força do trabalho como filósofo e educador revolucionário.
Sobre ele, posso começar pela cópia do seu lindo poema, que fala da universalidade do Recife. Quem me avisou desta bela poesia foi Peter Lownds, o escritor e poeta norte-americano mais brasileiro que existe, ele próprio um estudioso da obra de Paulo Freire. Peter Lownds traduziu este poema para o inglês. É um cântico de amor ao povo, que o nosso maior educador escreveu no exílio, sob a mais funda saudade:
Nunca te dás de uma vez.
Só aos pouquinhos te entregas
Podias chamar-te Maria
De Santiago te escrevo, Recife,
Para falar de ti a ti,
Para dizer-te que te quero
Profundamente, que te quero.
Cinco anos faz que te deixei –
Manhã cedo – tinha medo de olhar-te,
Tinha medo de ferir-te
Tinha medo de magoar-te.
Manhã cedo – palavras não dizia.
Como dizer palavra se partia?
Tinha medo de ouvir-me,
Tinha medo de olhar-me, Tinha medo de ferir-me,
Manhã cedo – as ruas atravessando
O aeroporto se aproximando,
O momento exato chegando,
Mil lembranças de ti me tomando
No meu silêncio necessário.
De Santiago te escrevo,
Para falar de ti a ti,
Para dizer-te de minha saudade, Recife,
Saudade mansa – paciente saudade,
Saudade bem-comportada.
Recife, sempre Recife, de ruas de
Rua da União, que Manuel
Bandeira tinha “medo que
se chamasse rua Fulano
de tal” e que hoje eu temo
que venha a se chamar
Rua Coronel Fulano de Tal.
Rua dos Sete Pecados.
gritando nas ruas, ritmadamente:
Chora menino pra comprar pitomba!
Eu tenho lã de barriguda pra “trabiceiro”!
Doce de banana e goiaba!
Para nós, meninos da mesma rua,
aquele homem que andava apressado
quase correndo – gritando, gritando:
Doce e banana e goiaba!
Aquele homem era um brinquedo também.
Doce de banana e goiaba!
Em cada esquina, um de nós........
