Suspeição ontológica
Há uma experiência recorrente entre pessoas dissidentes em espaços institucionais de escuta que raramente aparece com esse nome, embora seja facilmente reconhecível por quem já passou por ela. Trata-se de algo anterior ao desacordo e é diferente de uma crítica. Chamamos isso de suspeição ontológica.
Não se questiona apenas o argumento apresentado. Questiona-se a legitimidade de quem fala simplesmente por ocupar um lugar que ainda não foi plenamente reconhecido como pertencente aos marcos da cena institucional.
Esse tipo de situação reapareceu com nitidez ontem, durante um concurso público.
Enquanto a responsável pela condução do processo mantinha o ritmo e a formalidade esperados de sua função, um participante sem atribuição prevista no edital insistia em atravessar sua fala de maneira reiterada. Não era uma divergência técnica. Era um gesto repetido de deslocamento de autoridade, ala sustentou o equilíbrio necessário ao ambiente. Ele insistiu na interrupção como forma de disputa simbólica autorizada pela própria cultura institucional que ainda hesita diante de certas presenças.
A cena não é incomum. Em contextos formais, especialmente quando atravessados por questões de gênero ou por posições consideradas........
