O prato está menor e o corpo está sob vigilância
Em fevereiro de 2025, a influenciadora Maya Massafera provocou ampla repercussão ao reagir às críticas sobre sua magreza afirmando que "gente rica", a elite e o mundo da moda preferem corpos muito magros, enquanto "gente mais simples" tenderia a valorizar corpos mais cheinhos. Ao defender a perda de 25 quilos como escolha pessoal e cultural, sua fala foi lida como elitista e expôs como os padrões corporais seguem atravessados por classe social, capital simbólico e hierarquias de valor.
Meses depois, no BBB26, a atriz Solange Couto protagonizou nova controvérsia ao comentar de forma agressiva a alimentação de uma colega, consolidando sua imagem como uma espécie de "fiscal da comida". O episódio evidenciou como o ato de comer pode se transformar em alvo de vigilância, julgamento e constrangimento público.
Embora situados em universos distintos - redes sociais e televisão de massa - , ambos os casos revelam como fenômeno estrutural uma transformação da alimentação e do corpo em territórios morais permanentemente avaliados. Comer, engordar, emagrecer ou desejar determinados corpos deixa de ser experiência íntima para se tornar marcador de classe, status e pertencimento cultural.
Este artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre práticas alimentares, fome e formas contemporâneas de controle do comer. Articula dados sobre insegurança alimentar com dispositivos midiáticos, econômicos e biomédicos que moldam o consumo e os ideais corporais. Analisa, ainda, como a farmacologização do emagrecimento - por meio de medicamentos........
