Internet: uma floresta escura onde ninguém mais confia em ninguém
Nunca estivemos tão conectados, nunca estivemos tão desconfiados! No grupo de WhatsApp da família, no ambiente de trabalho, nas redes sociais, no condomínio, na universidade, nas relações afetivas, uma regra silenciosa se impôs sobre todos nós: É melhor que não fale demais, não se exponha demais, não apareça demais. A prudência virou estratégia de sobrevivência e, com alguma cautela, inserimo-nos em um novo modo de vida.
Esse comportamento cotidiano encontra eco numa ideia da ficção científica contemporânea. Na trilogia O Problema dos Três Corpos, do escritor chinês Liu Cixin, o universo é regido pela chamada Hipótese da Floresta Escura. Nela, civilizações avançadas permanecem em silêncio porque qualquer sinal pode resultar em destruição imediata. Falar é arriscar-se a morrer, e esconder-se é sobreviver. Traduções recentes podem aludir às políticas de "morte virtual" a partir dos cancelamentos.
Essa lógica, cada vez mais, parece ter migrado do espaço sideral para a vida social. Hoje, a floresta escura tem Wi-Fi, câmeras de vigilância, algoritmos, bancos de dados e sistemas de reputação. Ela está no celular, nas plataformas digitais, nos cadastros, nos históricos, nos prints, nos rastros que deixamos sem perceber. Vivemos observados, avaliados, classificados — quase sempre sem saber por quem nem sob quais critérios.
A pesquisadora polonesa Bogna Konior ajuda a compreender esse cenário ao analisar como as tecnologias contemporâneas operam por meio da opacidade — palavra recorrente em meus textos ao citar Édouard Glissant, mas que aqui aciona outra perspectiva. Não sabemos exatamente como funcionam os sistemas que nos governam, mas sentimos seus efeitos. Posts somem, perfis são punidos, discursos são silenciados, reputações são destruídas por um poder que é invisível. Entretanto, a punição é concreta.
Nesse ambiente, comunicar-se virou um risco calculado. As pessoas apagam tweets antigos, arquivam publicações, evitam posicionamentos, falam "em off", recorrem à ironia ou ao silêncio. Uma instituição posta foto e convida para um evento na chuva; cai um raio e fere pessoas; outra instituição, que fez o mesmo, passa a falar mal, exclui os chamados e as postagens críticas. A autocensura se naturalizou. Não é mais imposta por um censor explícito, mas produzida pelo medo difuso de retaliação, cancelamento, perseguição ou isolamento.
Outro fenômeno revelador dessa vida na........
