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Cazarré quer forjar homens. Cássia Kis expulsou Roberta do banheiro. E se o problema fosse o mesmo?

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26.04.2026

Vamos a pergunta que o debate sobre masculinidade recusa sistematicamente: o homem é frágil ou é uma ameaça? Porque as respostas, aparentemente opostas, circulam ao mesmo tempo — e com a mesma naturalidade. Ora nos dizem que o homem está “perdido”, que precisa de tutela, de retiro, de forja, de farol. Ora nos dizem que o mesmo homem é capaz de definir com autoridade quem pode usar um banheiro, quem pode existir num espaço público, quem é real o suficiente para ser mulher.

Dois episódios recentes tornaram esse paradoxo visível com clareza quase didática. E é sobre eles — e sobre o que revelam — que preciso falar.

O Farol e a Forja — ou: como recuperar o homem perdido

Em 2026, o ator Juliano Cazarré anunciou um evento imersivo presencial chamado O Farol e a Forja. A proposta articulava três eixos: masculinidade, espiritualidade cristã e liderança. A premissa central era explícita — os homens estariam “enfraquecidos”, deslocados, sem norte numa sociedade que os teria deixado à deriva.

O evento prometia palestras, práticas espirituais, empreendedorismo, disciplina pessoal, paternidade. Um pacote completo de reconstrução do sujeito masculino segundo coordenadas conservadoras e religiosas. A polêmica foi imediata, sobretudo no meio artístico: a leitura crítica dizia que o evento reedita hierarquias de gênero sob verniz espiritual e reativa discursos que, historicamente, sustentaram violência simbólica e material contra mulheres, crianças e dissidências.

O banheiro do BarraShopping — ou: quando o corpo trans é o problema

No mesmo período, uma mulher trans chamada Roberta relatou ter sido constrangida num banheiro feminino do BarraShopping. Segundo o relato, a atriz Cássia Kis questionou sua presença, nomeou-a como “homem”, declarou que “o Brasil estava perdido” — e transformou um espaço cotidiano num tribunal de identidade.

Roberta afirmou que foi uma das experiências mais humilhantes da sua vida. Gravou parte da cena. Anunciou medidas legais. A atriz não se pronunciou publicamente até o fechamento das reportagens. O caso repercutiu como mais um episódio da série que combina o nome do banheiro com a questão de quem tem permissão para habitar o gênero que afirma ser.

O mesmo regime, a mesma lógica

À primeira vista, os dois episódios parecem opostos. Num deles, o homem aparece........

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