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A política externa do império: projeção e produto de sua história

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17.01.2026

Nada do que estamos assistindo é estranho à história da formação da sociedade estadunidense, marcada pela violência da colonização, que é a semente de suas relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dos primeiros aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da barbárie sem descanso, que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se aprofunda, pragmaticamente desapartada de limites éticos ou de cuidados semânticos, aposentado o vencido cinismo liberal do discurso “politicamente correto”.

O big stick permanece a postos; variável é tão-só a fala.

O far west não é um só momento da saga dos pioneiros. É uma ideologia de expansão e domínio. É o direito (ou a força que se transforma em direito) que se legitima pela efetividade. Ou, para usar termos mais amenos, que se efetiva pela sua naturalização. Frantz Fanon já nos falou sobre a alienação do colonizado, reproduzindo como seus os interesses do colonizador. Há pouco nos foi dado conhecer as incursões mais ou menos bem-sucedidas de políticos brasileiros de extrema-direita obrando junto à Casa Branca contra interesses nacionais. Igualmente são públicas as tratativas de plantadores de soja e exportadores de carne negociando, em nosso nome, em Washington, o tarifaço de Trump.

O direito das gentes é a força que se faz valer e respeitar, como antes se faziam respeitar as legiões romanas, como hoje os marines (com o arsenal atômico de Washington em seus espadares) ditam a “nova ordem mundial”. Tragédia ou farsa, a “Conquista do Oeste” é a conquista do mundo, uma saga que começou quando os primeiros hominídeos desceram das árvores.

O far west não é um momento passado, vencido ou superado. É uma política vigente.

A violência, insisto – porque está no eixo explicador da história presente – é o traço formador da alma dos EUA: a ocupação do vasto território; a conquista do Oeste; a deliberada destruição das civilizações nativas; a escravidão luciferina; o racismo levado ao paroxismo; o macarthismo no século XX; e, em pleno século XXI, a violência contra imigrantes em país construído por imigrantes, e a sobrevivência da inominável Ku Klux Klan. As muitas guerras, nenhuma em defesa de seu território (jamais ameaçado); todas elas guerras de agressão, quase todas guerras de conquista territorial, de que é exemplar a guerra contra o México (1848) e a usurpação de nada menos do que 55% de seu território original.

Não há, pois, por que cuidar do trumpismo — ainda que sua violência espante até os súditos mais fiéis  — como um fenômeno próprio. Jamais um surto pananoide.

Como dizia Ernest Renan, “a nação é uma alma, um princípio espiritual”. A “alma estadunidense” é filha e mãe de sua história.
E nada mais estadunidense do que a índole do imperialismo — desnaturado ainda pela explosão do capitalismo monopolista, desnaturado por necessidade de expansão sem freios. O capitalismo é um Leviatã que não pode parar de crescer, de expandir-se; romper limites é o determinismo de sua pantagruélica fome cosmológica.

Lênin, escrevendo em 1916 ("Imperialismo: fase superior do capitalismo"), ditava que “o imperialismo é o capitalismo em sua fase superior, caracterizado pela dominação dos monopólios e do capital financeiro, pela exportação de capitais, pela partilha do mundo entre os grandes trustes internacionais e pela conclusão da partilha territorial do globo entre as grandes potências capitalistas”. Não foi lido pelos estrategistas brasileiros. Épena, pois ainda é preciso dizer-se que imperialismo não é apenas política externa, mas uma estrutura histórica do capitalismo, resultante da fusão entre capital bancário e industrial e da necessidade sistêmica de expansão, a que, antes, se referiu Marx: o capitalismo depende de sua expansão, e esta........

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