Do balcão ao algoritmo: a economia digital e a nova sociedade de serviços hiperconectada
A economia digital deixou de ser um segmento particular da economia para se transformar na infraestrutura da vida social. Dados, conectividade, plataformas, algoritmos, inteligência artificial, pagamentos eletrônicos e redes sociais passaram a organizar não apenas a produção, mas também o consumo, o trabalho, a circulação de mercadorias e a formação de renda.
De fato, ocorre uma transição acelerada para uma nova sociedade de serviços hiperconectada, na qual o celular pode ser, simultaneamente, loja, escritório, carteira, meio de transporte, agência de publicidade, estúdio de produção e plataforma de trabalho. Essa transformação produz uma mudança fundamental, na qual o trabalho começa a se deslocar do emprego para a atividade.
Na sociedade industrial, a referência era, em geral, o trabalhador empregado por uma empresa, em determinado local e jornada. Na sociedade digital, cresce o trabalho por tarefa, projeto, aplicativo, plataforma, comissão, contrato remoto ou múltiplas fontes de rendimento.
Isso não implica, necessariamente, o desaparecimento do emprego, pois ele deixa de ser a única forma de organizar a vida econômica.
A dimensão mundial dessa transformação é impressionante. A OIT, por exemplo, identificou o crescimento das plataformas digitais de trabalho de pelo menos 142, em 2010, para mais de 777, em 2020, mais de cinco vezes em uma década. Na União Europeia, estimava-se que 28,3 milhões de pessoas trabalhavam por plataformas em 2022, número projetado para alcançar 43 milhões em 2025, crescimento de 52%. O contingente já se aproximava dos 29 milhões de trabalhadores da indústria manufatureira europeia.
Não é pouca coisa, pois o trabalho por plataformas deixou de ser uma atividade marginal e passou a constituir componente relevante da sociedade de serviços. Nos Estados Unidos, na China, na Europa e nas economias asiáticas altamente digitalizadas, as trajetórias não são homogêneas, mas convergem em relação à fronteira entre comércio, serviço, entretenimento e trabalho, cada vez mais digital.
O comércio eletrônico, em especial, permite que uma empresa alcance consumidores sem multiplicar lojas físicas. Plataformas de transporte transformam veículos particulares em unidades de prestação de serviços. Aplicativos de entrega conectam restaurantes, consumidores e trabalhadores. O trabalho remoto permite que empresas contratem profissionais independentemente da localização. Redes sociais transformam audiência em ativo econômico.
A China avançou particularmente na integração entre comércio eletrônico, pagamentos móveis, redes sociais e live commerce. Nos Estados Unidos, plataformas globais reorganizaram comércio, publicidade, computação e prestação de serviços. Na Europa, a expansão da economia de plataformas produziu uma resposta institucional, uma vez que, na União Europeia, houve a aprovação da Diretiva 2024/2831, que estabelece regras para melhorar as condições de trabalho e enfrentar a gestão algorítmica.
A questão tornou-se evidente, com a posição de chefe podendo desaparecer fisicamente, substituída pelo algoritmo, que pode assumir parte das funções. Com isso, preços, distribuição de tarefas, avaliação, reputação, incentivos e acesso ao trabalho podem ser determinados por sistemas que o trabalhador não controla.
A autonomia cresce em alguns aspectos, mas pode coexistir com novas formas de dependência. Essa é uma das grandes contradições da sociedade hiperconectada, cuja tecnologia amplia o acesso ao mercado e, ao mesmo tempo, pode concentrar o poder de intermediação nas plataformas.
Outra mudança internacional é a separação entre o lugar onde o trabalhador vive e o local onde está seu mercado. Um programador brasileiro pode atender uma empresa americana, um designer pode trabalhar para clientes europeus,........
