Lula e o grito histórico de libertação da opressão neoliberal
Na “profusão das coisas acontecidas”, como versa o poeta Ferreira Gullar, o discurso realizado pelo presidente brasileiro diante dos líderes mundiais progressistas corre o risco de ser esquecido ou desvalorizado. Não deveria: ele representa uma bela síntese do vivido nas últimas décadas e identifica um impasse central a ser superado no presente e no futuro das experiências da esquerda mundial e brasileira.
Identificamos nele seis momentos decisivos, que compõem um conjunto integrado. Para efeito didático, reproduzimos estes seis momentos, identificando em cada um deles um núcleo central.
O primeiro: “Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discursos de esquerda mas praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema”
Há aqui, além da identificação da crise atual de legitimidade do neoliberalismo (a brutal oposição entre suas promessas e resultados), a formulação de um impasse central em tom auto-crítico. Em nome da governabilidade, governos de esquerda não conseguiram enfrentar e muito menos superar os fundamentos da macro-economia neoliberal.
O segundo momento: “Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema. O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo. Mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade. Uma política climática série e responsável. Uma política de meio-ambiente e cultura. Ela quer um mundo limpo e saudável. Um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada. Um salário que permita uma vida confortável. A extrema-direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas pelo neoliberalismo.”
Aqui se diz que a adaptação das esquerdas às políticas macro-econômicas neoliberais abre o caminho para o trabalho demagógico das extremas direitas, apresentando-se farsescamente como anti-sistema. É a razão principal de seu crescimento. Mas este mal entendido – a extrema-direita que compõe o núcleo do sistema apresentando-se como externa e contra ele – pode ser dissolvido na medida em que se vá ao encontro dos direitos fundamentais dos trabalhadores e do povo.
O terceiro momento: “ Canalizou a frustração das pessoas, inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, falando dos negros, falando da população LGBTQ, falando dos imigrantes. Ou seja, todas as pessoas mais necessitadas passam a ser vítimas do discurso do ódio que essas pessoas fazem”.
A passagem importante aqui da narrativa que vai se formando é que as dimensões racistas, homofóbicas, misóginas e coloniais não são separadas do mal estar das classes trabalhadoras e do povo mas têm neste contexto social seu poder de expansão. Assim, os discursos do ódio e as dinâmicas comunicativas pelas quais se irradiam não são tratados separadamente no âmbito de cada uma destas dimensões nem mesmo relacionados apenas a uma dinâmica comunicativa.
O quarto momento: “Nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados. Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial. Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia. Mas chutam a escada para que outras pessoas não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada e exploram o trabalho, destroem a natureza, manipulam algorítimos.”
Nesta passagem, a denúncia classista dos grandes capitalistas vai ao centro. A crítica da falácia do empreendorismo, da evasão fiscal, da exploração e da devastação ambiental são todas endereçadas ao sistema mundial controlado pelos bilionários.
Um quinto momento: “A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo. Esta luta precisa ser global. De nada adianta manter a casa em ordem em um mundo em desordem. Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças. Gastam em armas bilhões que poderiam ser usados para acabar com a fome, resolver o problema energético e o problema da saúde. O Sul Global paga a conta da guerra que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências. É sufocado por tarifas absurdas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como um fornecedor de matérias-primas”.
Este é o momento mais decisivo da consciência internacionalista, de denúncia da ordem neoliberal global e da impossibilidade de superá-la apenas no plano nacional.
Enfim, um sexto momento: “Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado. É defender a paz que prevaleça sobre a força. É combater a fome e proteger o meio-ambiente. É restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade de seus membros permanentes. É criar um sistema que as regras valham para todos. Em que países desenvolvidos e em desenvolvimento estejam em pé de igualdade no Conselho de Segurança, no Banco Mundial, no FMI e na OMC.”
A construção desta agenda internacionalista tem o seu centro na crítica do unilateralismo geopolítico praticado pelos EUA desde a ascensão do neoliberalismo e na identificação dos limites democráticos da ONU, que deveria ser reformada.
A consciência do........
