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A direita ressuscitou Lulinha – A negligência estratégica do PT

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08.09.2026

Ricardo Berzoini, ex-deputado federal, ex-ministro de Lula e Dilma e ex-presidente do PT, declarou recentemente na imprensa que a campanha presidencial está aberta, que Lula não é mais favorito e defendeu pesquisas qualitativas, capazes de identificar as razões que levam eleitores a escolher ou abandonar uma candidatura. Ricardo falou do alto de sua experiência, mas, também, com um olhar estrangeiro, de quem enxerga a campanha pelo lado de fora, o que sempre entrega uma leitura mais realista ao observador. E ele está coberto de razão.

As pesquisas mais recentes acenderam um sinal de emergência na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva. Não porque o presidente tenha deixado de liderar o primeiro turno, mas porque a vantagem construída ao longo dos últimos meses foi progressivamente consumida até que a disputa de segundo turno se tornasse rigorosamente imprevisível.

A Quaest divulgada em 7 de setembro encontrou Lula e Flávio Bolsonaro numericamente empatados, ambos com 41%. No primeiro turno, Lula ainda liderava por 36% a 29%, mas carregava rejeição de 53%, apenas dois pontos abaixo dos 55% do adversário. No dia seguinte, a BTG/Nexus mostrou situação ainda mais inquietante: Flávio apareceu numericamente à frente no segundo turno, com 46%, contra 45% de Lula. No primeiro turno, a distância entre eles havia diminuído para quatro pontos: 39% a 35%.

São empates técnicos, evidentemente, mas a trajetória importa tanto quanto a fotografia. E a trajetória revela que a direita avança enquanto Lula perde a margem de segurança que possuía.

Não se pode atribuir essa redução a uma única causa. A percepção popular sobre a economia continua sendo determinada muito mais pelo preço dos alimentos, pelo endividamento das famílias, pela inadimplência e pelo dinheiro que sobra no fim do mês do que pelos indicadores macroeconômicos apresentados pelo governo. Há ainda a fila do INSS, as inquietações fiscais, a resistência persistente entre parcelas do eleitorado evangélico e o desgaste natural de quem governa.

Uma eleição presidencial, porém, não é decidida apenas pelos fatos objetivos. É decidida também pela capacidade de conferir significado político a esses fatos.

Foi exatamente nesse terreno que o caso Lulinha passou a operar.

Fábio Luís Lula da Silva está sob investigação por suspeitas de tráfico de influência. Isso não equivale a condenação, nem autoriza que acusações sejam apresentadas como fatos definitivamente comprovados. O devido processo legal não pode ser substituído pela conveniência eleitoral. Campanhas, entretanto, não se desenvolvem no tempo da Justiça. Desenvolvem-se no tempo instantâneo das redes sociais, no qual suspeita, insinuação e sentença costumam ser comprimidas na mesma postagem.

A consequência política já pode ser medida. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg apontou que 60,7% dos entrevistados consideram que o caso arranha a imagem do governo. Para 55,1%, as investigações envolvendo Fábio Luís afetam diretamente a administração de Lula; apenas 37,9% as enxergam como assunto exclusivamente pessoal do filho do presidente.

Portanto, independentemente do que venha a ser juridicamente demonstrado, o dano eleitoral já atravessou a fronteira familiar e alcançou o Palácio do Planalto.

Lula percebeu o mecanismo e o resumiu numa frase:

“Toda eleição ressuscitam esse Lulinha e sempre o resultado é o mesmo: nenhum”.

A declaração pode estar historicamente correta quanto ao desfecho das acusações anteriores, mas contém, involuntariamente, uma confissão sobre a vulnerabilidade da própria campanha. Se em toda eleição Lulinha é ressuscitado para atacar o pai, por que o marketing petista se comportou como se essa ressurreição fosse inesperada?

Eis o ponto central. A direita não inventou uma linguagem nova, não apresentou uma engenharia eleitoral desconhecida e tampouco surpreendeu pelo repertório. Fez aquilo que sempre faz: associou Lula, sua família e o PT à corrupção; selecionou fatos capazes de alimentar esse enredo; recortou declarações; repetiu palavras de forte apelo emocional; inundou as redes e obrigou o adversário a responder dentro da moldura construída por ela.

O fato pode ser novo. O método é antigo.

Mas a previsibilidade não se limitava ao reaparecimento de Lulinha. Existia uma conjuntura institucional inteira, conhecida com grande antecedência, que exigia do PT um planejamento preventivo muito mais sofisticado.

As eleições de 2026 seriam comandadas no Tribunal Superior Eleitoral por Kassio Nunes Marques, tendo André Mendonça como vice-presidente. Ambos chegaram ao Supremo Tribunal Federal por indicação de Jair Bolsonaro. Nunes Marques, além disso, votou contra a inelegibilidade do ex-presidente em 2023. Sua chegada à presidência do TSE não decorreu de uma articulação clandestina, mas do sistema regular de rodízio entre os ministros do Supremo que integram a Corte Eleitoral. Justamente por ser pública, legítima e conhecida, essa mudança de comando deveria ter sido incorporada ao mapa estratégico do PT muito antes do início da campanha.

Paralelamente, André Mendonça tornou-se relator, no STF, de investigações sensíveis envolvendo o Banco Master e as fraudes no INSS, das quais surgiram citações e novos inquéritos relacionados a Lulinha. O ministro passou, portanto, a ocupar uma posição central em procedimentos com enorme capacidade de produzir fatos políticos durante a campanha presidencial.

É ingênuo exigir que uma campanha presidencial ignorasse a história, as posições conhecidas, as relações simbólicas e os efeitos políticos previsíveis das decisões de autoridades que ocupam centros tão sensíveis de poder.

O PT precisa agir profissionalmente tanto em diagnosticar conjunturas políticas quanto em receitar o medicamento para os males eleitorais que o atingem. Uma superinteligência preventiva seria o desejável, que não trabalha........

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