Quando a China entrou na Casa Branca vestida de si mesma
Por Iara Vidal – Os olhos do mundo se voltaram para a visita de Estado de Xi Jinping aos Estados Unidos, entre 23 e 25 de setembro. Mas, entre reuniões de alto nível, acordos econômicos e os inevitáveis gestos calculados da diplomacia, parte dos holofotes acabou capturada pela primeira-dama chinesa, Peng Liyuan — e por uma escolha nada trivial de vestuário.
No baile de gala oferecido na Casa Branca, porém, não foi apenas Peng que chamou atenção. Xi Jinping e integrantes da delegação chinesa também surpreenderam ao aparecer com trajes que escapavam do figurino ocidental esperado para esse tipo de cerimônia.
E, como quase tudo em uma visita de Estado, aquilo estava longe de ser apenas uma escolha estética.
Peng Liyuan e a China que se veste para o mundo
Um dos primeiros textos que escrevi depois de me mudar para a China foi justamente sobre Peng Liyuan — e sobre como ela está longe de ser apenas a primeira-dama do país. Sua presença pública faz parte de uma construção muito mais ampla da imagem que a China projeta para o mundo.
Antes mesmo de ocupar esse lugar, Peng já era uma artista de enorme prestígio nacional. Na diplomacia, essa trajetória se transformou em linguagem. Seus gestos, seus trajes, a escolha dos tecidos, dos cortes e das referências tradicionais ajudam a comunicar uma China que quer ser moderna sem abrir mão da própria memória.
Isso acontece justamente num momento em que a moda chinesa também muda de posição no tabuleiro global. Durante décadas, o Ocidente se acostumou a olhar para a China como chão de fábrica. Essa imagem já não dá conta do que está acontecendo.
O país continua sendo uma potência produtiva, mas passou também a produzir estética, tendência, tecnologia e desejo.
Shanghai e Shenzhen se tornaram vitrines dessa transformação, enquanto designers chineses, novas marcas e tecnologias aplicadas à moda avançam sobre um campo que, durante muito tempo, pareceu propriedade quase exclusiva das capitais europeias.
Peng se move exatamente nessa fronteira. Sua imagem combina tradição, artesanato e uma sofisticação que raramente depende da ostentação. É uma forma de soft power menos ruidosa, mas nem por isso menos política.
Porque vestir também é narrar um país.
E a China de hoje parece cada vez mais interessada em contar essa história com a própria voz — e com a própria roupa.
Mas talvez seja um erro olhar apenas para Peng.
Quando o assunto é a construção visual da China no exterior, Xi Jinping e a primeira-dama frequentemente funcionam como uma dupla.
Já escrevi aqui sobre isso ao analisar o desfile dos 80 anos da vitória contra o fascismo, em Beijing. Naquela ocasião, Xi vestiu o zhongshan zhuang — conhecido no Ocidente como “terno Mao” — enquanto Peng apareceu de qipao.
Os dois coordenaram não apenas a paleta de cores, mas duas peças que carregam décadas de história política e cultural chinesa.
O zhongshan zhuang, aliás, diz muito mais do que o apelido “terno Mao” costuma sugerir. A peça nasceu no início do século XX, associada a Sun Zhongshan, o Sun Yat-sen, e foi concebida como uma tentativa de criar uma roupa moderna, funcional e chinesa, distinta tanto da pompa imperial quanto do terno ocidental usado pelas elites.
Mais tarde, sob Mao Zedong, ganhou outra camada de significado e se tornou símbolo de igualdade, disciplina e soberania nacional.
Xi recuperou esse traje de forma seletiva. No........
