Papudinha vira palanque em nome de Deus
Moraes autorizou a entrada de um pastor-deputado do PL e do bispo Robson Rodovalho para “assistir” o condenado na Papudinha. O gesto religioso do ministro pode, na prática, transformar-se num dispositivo político para manter viva a máquina da ultradireita.
A prisão de Jair Bolsonaro não encerra o bolsonarismo. Ela apenas altera seu cenário e sua linguagem. Diante da queda do mito no campo jurídico, a extrema direita tenta reposicioná-lo no terreno onde sempre foi mais perigosa: o da fé instrumentalizada como arma. A autorização do ministro Alexandre de Moraes para que Bolsonaro receba “assistência religiosa” semanal na Papuda não é um detalhe humanitário. É uma fresta aberta para uma operação simbólica — a tentativa de transformar cadeia em altar, processo em perseguição e responsabilização em martírio.
Nesta sexta-feira, 16 de janeiro de 2026, saiu a noticiou que Moraes autorizou visitas individuais a Bolsonaro na chamada “Papudinha” por dois religiosos: o deputado distrital Thiago Manzoni (PL-DF), ligado à igreja IDE Brasília, e o ex-deputado Robson Rodovalho, fundador e presidente da igreja Sara Nossa Terra. As visitas serão uma vez por semana, por uma hora, às terças ou sextas-feiras.
A pergunta que o país deveria fazer não é apenas “quem vai visitar Bolsonaro?”. A pergunta real é: quem está autorizado a gerir o mito Bolsonaro dentro da prisão — e por quê?
A “assistência religiosa” como operação de propaganda
O bolsonarismo nunca foi apenas um movimento político. Ele sempre operou como uma seita de mobilização permanente, cujo combustível central é a emoção organizada: medo, ressentimento, ódio e sensação de missão divina. Seu método é conhecido. Substituir fatos por fé, responsabilidade por perseguição, democracia por guerra cultural.
Por isso, a expressão “assistência religiosa” é enganosa. No vocabulário da extrema direita, ela significa outra coisa: assistência narrativa. Gestão de imagem. Controle de danos. Manutenção de disciplina emocional da base.
Bolsonaro preso representa um risco mortal ao bolsonarismo: a desmoralização do líder. E a extrema direita sabe que, se o líder cai como um homem comum, cai junto o mito do “escolhido”, do “ungido”, do........
