O Reino dos Blocos Mágicos
Prólogo: Era Uma Vez… o Problema do Dinheiro
Era uma vez, num mundo não muito diferente do nosso, um lugar onde as pessoas trocavam coisas preciosas por outras coisas preciosas.
Primeiro foram conchinhas.
Depois pedras especiais.
O ouro era perfeito! Era bonito, raro e quase impossível de enganar (havia a pirita que podia enganar, o famoso ouro de tolo).
Bem, nem tudo era perfeito e usar ouro para as trocas tinha um problema: pesava muito.
Imagine tentar comprar um barco carregando sacos de ouro nas costas? Ou mandar os sacos ou caixas pesadas com o metal para outra cidade através de estradas cheias de ladrões de ouro.
O ouro era confiável, mas como era trabalhoso!
Então alguém teve uma ideia brilhante: “E se, em vez de carregar o ouro, você deixasse o ouro guardado num lugar seguro, um cofre e carregasse apenas um papel que provasse que o ouro estava lá?
Um papel que dissesse: “O portador deste bilhete tem direito a X ouro.”
Nasceu assim a nota promissória.
Nasceu o papel-moeda.
Por séculos, cada cédula era uma promessa real, lastreada em ouro de verdade guardado em algum cofre. Você poderia, em teoria, ir nesse tal lugar seguro e trocar seu papel pelo metal reluzente.
Até que os governos perceberam algo tentador: ninguém estava trocando o papel pelo ouro ao mesmo tempo.
Então… por que não imprimir um pouco mais de papel do que o ouro que tinham?
E assim imprimiram mais um pouco.
Até que um dia o papel deixou de ser prometido em ouro. Esse papel passou a ser lastreado por CONFIANÇA! Numa promessa sem garantia. Esse papel passou a se chamar dinheiro!
Nesse mundo, o tal cofre onde se guardava o ouro passou a ser o Guardião de todas as promessas de papel que passavam por ele.
Nesse momento, o Guardião ganhou poder absoluto. Ele se chamava Banco, e era muito, muito poderoso.
Claro que ele dava segurança às trocas e isso era uma tranquilidade para todos. Por isso mesmo o poder dele foi crescendo infinitamente.
Queria enviar dinheiro para a avó que mora do outro lado do mundo? Era preciso pedir permissão ao Banco. Queria guardar suas economias? O Banco dizia o que fazer com elas. Emprestar dinheiro? O Banco escolhia quem merecia recebê-lo.
O Guardião Banco mediava tudo e trabalhava para organizar todas as trocas e, por isso, cobrava taxas dos donos dos papéis.
Ele demorava dias. Às vezes dormia. Cobrava mais caro de uns que de outros.
Às vezes fechava a porta na sua cara. E o pior: podia simplesmente decidir que você não existia mais no seu registro, ou seja, no sistema.
Até que em uma noite de outono de 2008, enquanto o mundo tremia com uma crise financeira enorme, uma carta misteriosa apareceu na internet. Assinada por alguém chamado Satoshi Nakamoto, que pode ser uma pessoa, um grupo, ou até mesmo um fantasma, ninguém sabe até hoje, a tal carta dizia: e se nós pudéssemos criar um dinheiro sem o Guardião Banco?
Capítulo I: A Magia dos Livros que Ninguém Pode Apagar
Imagine um livro mágico. Não qualquer livro: um livro onde, assim que você escreve uma página, ela se transforma em pedra. Ninguém pode apagá-la. Ninguém pode corrigir uma letra. E, aqui está o feitiço mais poderoso: existem milhares de cópias idênticas desse livro espalhadas pelo mundo inteiro, em computadores de pessoas que você nunca conheceu.
Isso é a Blockchain. Em português literal: cadeia de blocos.
Cada “página” desse livro é chamada de bloco. Cada bloco guarda um pacote de informações: um registro, um acontecimento, um fato que precisa ser lembrado para sempre. Quando o bloco está cheio, ele recebe um carimbo especial e mágico, chamado de hash, que é como uma digital única daquele bloco. Nenhum outro bloco no mundo tem o mesmo carimbo. Tudo isso só com pura Matemática!
E tem mais! O carimbo do próximo bloco inclui o carimbo do bloco anterior. Como se cada página nova fosse costurada à página anterior com um fio de ouro inquebrável. Se alguém tentar mudar qualquer coisa em qualquer bloco antigo, todos os outros blocos ficam errados. O livro grita: “MENTIRA! MENTIRA!”
Mas o que se escreve neste livro? Qualquer coisa que precise ser lembrada para sempre e com honestidade. Pode ser um contrato entre duas pessoas. Pode ser o registro de quem é dono de uma terra. Pode ser um voto numa eleição. Pode ser o histórico médico de um paciente. Pode ser, até, uma receita de bolo que o avô não quer que ninguém altere depois que ele partir.
Mas a primeira e mais famosa coisa que alguém resolveu registrar neste livro foi uma transferência de dinheiro – o tal Bitcoin.
“João enviou 1 moeda para Maria às 14h32 do dia tal.” Simples assim. E foi dessa ideia de usar o livro inquebrantável para guardar quem tem quanto e quem mandou o quê para quem que nasceu o Bitcoin. A moeda que não precisa de banco porque o próprio livro é o banco.
Mas quem guarda todas essas cópias do livro? Todo mundo e ninguém.........
