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Trabalho, tempo e formação humana: o sequestro do ócio no Brasil das desigualdades

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Há algo de profundamente errado numa sociedade que precisa convencer seus membros de que o sofrimento cotidiano é virtude. Paul Lafargue percebeu isso ainda no século XIX, quando escreveu O Direito à Preguiça. Seu alvo não era apenas o capital ou a fábrica, mas algo mais profundo e duradouro. Lafargue denunciou a moral do trabalho, transformada em dogma civilizatório pela burguesia parasitária. 

Historicamente, o capitalismo organizou a vida social a partir do tempo produtivo, ou seja, o tempo do trabalho. O tempo livre surge como seu negativo, aquilo que resta após a jornada laboral, mesmo que extenuante. Nas últimas décadas, entretanto, com a intensificação da financeirização, da uberização e das formas flexíveis e informais de trabalho, essa fronteira tornou-se cada vez mais tênue. O trabalho invade o tempo da vida, coloniza o descanso e transforma o cotidiano em permanente disponibilidade para o trabalho precarizado e sem direitos.

Essa realidade coloca a sociedade contemporânea em uma disputa profunda em torno da ideia de tempo. Não se trata apenas de uma questão subjetiva ou existencial, mas de uma dimensão concreta da vida social que tem no trabalho sua centralidade. Na fase do capitalismo atual, o tempo deixou de ser apenas condição da vida humana e passou a operar como mercadoria escassa, fragmentada e rigidamente controlada.

No Brasil, as relações de........

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