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De alcoólatra a maconheiro

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03.01.2026

Ninguém nunca bebeu na minha família. Meu pai era um cara alto, forte e bonitão, operário de uma fábrica de tintas. No fim do dia, ganhava um copo de leite, um paliativo para o ambiente tóxico que corroía seu fígado. Ele mal sabia ler e escrever, perdia muitos dias de aula na infância por não ter sapatos para ir à escola. Revezava-os com seus cinco irmãos. 

Seu pai dedicava-se aos estudos da Torá e do Talmud e só não virou rabino porque não podia dispensar os míseros tostões que ganhava no escritório de uma fábrica que produzia não sei exatamente o que. 

Certa vez, seu chefe deu-lhe uma boa notícia. Receberia um bom aumento, mas teria que trabalhar aos sábados. Trabalhar no shabat era expressamente proibido pelas leis mosaicas. E a última coisa que ele queria era brigar com Deus. Continuou vivendo de seu salário magro, insuficiente para comprar os sapatos dos filhos. 

Ele, minha avó e os cinco irmãos do meu pai foram assassinados quando, por volta de 1940, os carrascos nazistas transformaram Drogobych, uma pequena cidade tipicamente judaica, berço de rabinos, músicos, escritores num gueto e passaram a fuzilar seus pacíficos habitantes na floresta que ficava nos arredores da cidade ou despachando-os para as câmaras de gás de uma cidade vizinha. Meu pai escapou porque estava no “front”.

Os pais da minha mãe foram deportados para a Sibéria pelos militantes comunistas que ocuparam o vilarejo de Kurilovitz, também majoritariamente judaico, e tomaram na mão grande sua pequena loja de tecidos, na década de 20. Meu avô sobreviveu a um dos lugares mais gelados do planeta, mas minha avó não resistiu.

Quando a Segunda Grande Guerra começou, minha mãe teve que abandonar a Faculdade de Medicina, onde estava perto de se formar, para fugir, junto com sua irmã, o mais longe possível do cenário das operações militares. 

Seus irmãos mais velhos tiveram mais sorte. George Davidson tornou-se um importante médico legista em Odessa; Yacha consagrou-se como fotógrafo de guerra,........

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