menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

De alcoólatra a maconheiro (2)

10 1
05.01.2026

(continuação)

“São Paulo, 14/1/1957

Minha querida irmã:
Se esta carta chegar às suas mãos (não é a primeira que escrevo), quero que saiba que hoje sou um próspero comerciante no Brasil, em condições de trazer você, seu marido e seus filhos para cá. Não se preocupe com nada. Vou cuidar de todos os papéis, pagar as passagens de avião e dar todo o apoio nos primeiros dias após a sua chegada. Aqui é uma democracia, todos têm liberdade para trabalhar no que quiserem, e nós, judeus, não somos perseguidos. O povo brasileiro é muito acolhedor, não rejeita estrangeiros; ao contrário, trata-os como seus conterrâneos e ajuda no que pode, apesar de a maioria não dispor de meios para levar uma vida digna. Tenho duas filhas, a mais velha formou-se em Química e casou-se com um rapaz formado em Física. Eles pretendem continuar seus estudos nos Estados Unidos, para onde vão viajar em breve. A minha filha menor está no último ano da Faculdade de Odontologia e está noiva de um rapaz muito simpático, prestes a se formar engenheiro. Espero que você aceite meu convite, pois meu maior desejo é tirá-los o mais depressa possível da Ucrânia.

Seu irmão, David”

Minha mãe, quando acabou de ler a carta, estava em prantos. Sair daquele inferno era o que ela mais queria. Não suportava a ideia de que eu e meu irmão, aos dezoito anos, teríamos de servir o Exército, serviço obrigatório do qual muitos não voltavam para casa. Não aguentava mais sair da cama em plena madrugada para enfrentar uma fila enorme na frente do açougue estatal, por horas a fio, com temperaturas de menos 15 graus e, ao chegar sua vez, não haver mais um grama de carne. Não queria mais ficar à espera do meu pai, quando saía, nas sombras, para pintar as paredes da casa de algum conhecido, em troca de alguns rublos,........

© Brasil 247