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“O estado que tem mais organizações sociais, inclusive uma do Einstein, é a Bahia, governada há 20 anos pelo PT”

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Referência em saúde no Brasil, pioneiro e inovador, o oftalmologista Claudio Lottenberg, 65, foi presidente do Hospital Albert Einstein aos 40 anos — período em que aproximou a instituição do SUS. Atual presidente do Conselho de Administração do Einstein, autor de livros e intelectual, ele concede nesta entrevista exclusiva uma aula não só de medicina, mas de vida, e aborda temas que raramente aparecem em conversas públicas.

EU: Sejam bem-vindos a mais um programa Cessar Fogo.

O meu convidado de hoje tem um currículo imenso, é um currículo tão grande que eu desconfio que ele não seja um só, são vários. Ele faz cirurgia de transplante de córnea, catarata, miopia... preside o conselho do Hospital Albert Einstein, escreve livros, tem várias atividades, participa de conselhos, é uma referência em saúde no Brasil, a realidade é essa, é uma referência em saúde no Brasil.

Então, é melhor a gente já apresentá-lo de uma vez para conversar, que é o doutor Claudio Lottenberg, que está aqui. Dr. Claudio Lottenberg, primeiro eu quero agradecer publicamente tudo o que você fez por mim, porque o Claudio salvou a minha vida, foi um dos anjos que salvaram a minha vida naquele dia em que eu podia ter passado para o outro lado, mas não passei.

E eu quero agradecer tudo o que você fez, e a sua equipe, os quinze mil funcionários do Einstein, aquilo é uma cidade, são todos maravilhosos, desde enfermeira, faxineira, eu conversei muito com eles, e era Natal, então, todos maravilhados com o Einstein, todos me atendendo muito bem.

Então, primeiro, eu quero agradecer a você todo o carinho, todo o carinho que eu tive naquele hospital, que é um modelo que eu sei que é sinônimo de você, porque você fez uma revolução no Einstein, quando você entrou, aliás, há vinte anos, você transformou o Einstein. Hoje tem Einstein atendendo pelo SUS e etc., mas tudo isso nós vamos conversar.

Mas, Claudio, eu queria começar dizendo que, quando eu estive internado, como a gente fica lá sem fazer muita coisa, não está trabalhando, nada, fiquei refletindo muito sobre o nosso corpo, e como nós não conhecemos o nosso corpo.

Os animais conhecem melhor o corpo deles do que nós, eles sabem o que comer, o que não comer, e eu acho que isso é uma falha, é uma falha da educação, eu acho que desde o começo, desde a mais tenra idade, as crianças deveriam receber essa orientação...

Eu acho que desde a infância, nas escolas, o que a gente aprende na escola é o que está fora do nosso corpo. Qual é o rio mais comprido do mundo? Quem descobriu o Brasil?

Eu acho que as crianças deveriam, desde cedo, aprender como cuidar do corpo, o que comer, o que não comer etc.

Eu queria conversar com você, o que você pensa desse assunto?

“As pessoas começam a adoecer desde que nascem”

CLAUDIO: Primeiro, eu queria dizer o seguinte, que quando a gente tem a oportunidade de cuidar de uma pessoa, a gente, enquanto médico e pessoas que têm uma formação, eu diria até, não só no sentido ético, mas humano, a gente tem que agradecer pelo fato da pessoa confiar a sua vida.

E poder fazer alguém, por quem existe naquele momento, algo que está fragilizado, eu posso dizer como médico, e poder dedicar e devolver e ouvir depois algo tão gratificante como aquilo que você fala, eu tenho que agradecer.

Agradecer a você e agradecer a Deus que me colocou nesse mundo para poder participar de algo tão importante como é a saúde. É gratificante ser médico.

E, na realidade, Alex, você faz uma pergunta... a respeito de algo que envolve o autocuidado. E nós, de fato, não somos pessoas que somos direcionados a tomar conta da nossa própria saúde.

Quero primeiro fazer menção àquilo que o próprio princípio constitucional diz, que a saúde é um dever do Estado, um direito do cidadão, quando na realidade a saúde deveria ser um dever do cidadão. Porque a pessoa que não se cuida, ela onera a sociedade.

E dentro da perspectiva daquilo que envolve uma visão social de seguridade, esse prejuízo acaba sendo socializado. E, consequentemente, prejudicando toda a sociedade. E, muitas vezes, inviabilizando os sistemas de saúde numa escala logicamente maior.

Agora, existe um outro mito, e aí fugindo para algo... mais específico… que valoriza demasiadamente a tecnologia. E a tecnologia de fato fez a diferença na saúde.

Se nós olharmos as mudanças importantes desde a descoberta do simples termômetro, você, com o termômetro, consegue descobrir a febre. E a febre é um sinal indireto de que algo não está funcionando bem no teu organismo.

O surgimento do microscópio, que foi o que possibilitou a nós, médicos ou oftalmologistas, fazer as microcirurgias, até os modernos aparelhos de PET, os aparelhos de HIFU para doenças neurológicas.

Mas se a gente olhar isso, a sensação que se dá é que o mundo valoriza muito a tecnologia, e a tecnologia é utilizada em momentos agudos, mas ela não necessariamente trabalha na cronificação de determinadas doenças.

As pessoas começam a adoecer desde que nascem. Porque basta que elas tenham o seu corpo, como você bem descreveu, para que elas possam ter consequências no dia a dia.

Então, desde coisas óbvias, como alimentação, nós médicos não somos treinados para orientar a alimentação.

A prática da atividade física, questões que às vezes não são tão lógicas, não são cartesianas, são meio quânticas, como eu costumo dizer, né?

Então quando a gente vê um mundo no qual a gente valoriza demais a perspectiva tecnológica e não cuida das coisas mais triviais do dia a dia, eu sou obrigado a concordar com você que o foco não está naquilo que de fato poderia mudar um paradigma no contexto de uma cultura da sociedade.

Então, um bom sistema de saúde não é aquele que tem grandes hospitais, um bom sistema de saúde é aquele que tem aparelhos sofisticados ou que gasta muito dinheiro.

Os Estados Unidos gastam muito dinheiro. A expectativa de vida nos Estados Unidos, exceto naquelas zonas azuis que a gente costuma citar, mas que não existem só lá, existem em outros locais do mundo, não é o sistema de saúde melhor que existe.

Não é aquele que tem os melhores indicadores em termos de qualidade de vida e expectativa de vida.

Então, o teu ponto de observação é muito lúcido porque ele nos obriga a rever a forma como nós somos criados e educados para cuidar das nossas vidas.

Cuidar da vida não é cuidar da doença, cuidar da vida é cuidar da vida. Isso significa plantar, cultivar e atuar dentro daquilo que possa trazer uma perspectiva de saúde e não doença.

EU: Você falou no dever do Estado. Eu acho que o Estado, eu acho que o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde teriam que cuidar disso.

Tinha que ter um currículo escolar desde pequeno, a matéria sobre o nosso corpo. Não para dizer como é que chama o osso, tal, como é que chama a artéria, temos corpo... Não, é como cuidar.

E eu te cito um exemplo. Na China, as crianças desde pequenas, elas aprendem a plantar e a cozinhar, a cozinhar comida saudável desde pequenas, que elas mesmas plantam.

Isso eu acho que deveria fazer parte do currículo escolar. O Ministério da Educação não é só ensinar dois mais dois são quatro, não é só fazer escolas grandes com piscina ou maravilhosas, não.

O nosso patrimônio é o nosso corpo.

Então, veja só, e conforme a criança vai crescendo, essas informações têm que ser mais detalhadas, porque... só quem estuda medicina fica conhecendo o corpo, e eu acho que é um dever do Ministério da Educação, do Ministério da Saúde.

O Ministério da Saúde deveria dizer para as pessoas, vocês não podem fumar, vocês não podem fumar, porque veja só a lógica, nós combatemos a poluição, se a fumaça faz mal fora do nosso corpo, imagina dentro do nosso corpo, então a gente combate, queremos um meio ambiente limpo, nosso meio ambiente é o nosso corpo.

Então, o Ministério da Saúde tinha que avisar, não comam defumados, não comam embutidos.

“A gente não pode permitir que se faça política da saúde. A gente tem que fazer política para a saúde”

CLAUDIO: Você está partindo do ponto correto. Alex, você sabe que eu tive um período no qual fui secretário da Saúde aqui de São Paulo. E foi uma experiência fantástica.

Primeiro, para entender que aquilo que existe no setor público de saúde não é de todo ruim. As pessoas costumam criticar, às vezes, de forma indevida.

O próprio Sistema Único de Saúde, que para mim é uma grande conquista e que foi ele o grande garantidor para que a pandemia ainda não fosse pior do que ela acabou sendo, ele tem uma série de virtudes e ele pode inspirar muito a medicina privada.

Porque ele trabalha dentro do sistema de custeio que ele é fechado, portanto não tem esse estímulo, esse desperdício que a indústria com visão mercantil acaba impondo dentro da área privada principalmente.

Mas naquela época na secretaria, eu me lembro que, por vezes, eu cheguei a conversar com o secretário da Educação e explicar aquilo que ele poderia estar fazendo em termos de uma postura revolucionária.

Ensinar às pessoas o que são os cuidados em relação à saúde.

Não é simplesmente ir lá fazer exame de visão ou de audição para ver se o aluno consegue enxergar e ler para ter o melhor rendimento escolar.

É como ele vai cuidar do bem mais precioso que ele tem, que é a vida dele.

Isso em absoluto não é explicado. Então, eu acho que tem muita coisa para ser feita em saúde que não deriva necessariamente das ações do Ministério da Saúde ou de um grande hospital ou de verbas muitas vezes monstruosas.

Eu acho que a perspectiva educativa tem um impacto importante.

Outras coisas que interferem. Quando a gente fala em determinantes sociais da saúde, Alex, outro capítulo para a gente abrir quanto determinadas questões que envolvem a pobreza, se eliminadas, teriam efeito positivo em relação à saúde das pessoas.

O que eu posso dizer, sabe, Alex, a gente teve a oportunidade de conversar, foi um encontro emocionante e muito gostoso, onde você veio me dar um abraço e houve uma relação empática imediata, um gostou muito do outro. Sim.

E foi uma surpresa, pelo menos do meu lado, posso dizer, muito agradável conversar com você.

A saúde é um capítulo fascinante. Eu, quando jovem, claro, tenho filhos pequenos também, eu tinha dúvidas se eu ia ser feliz sendo médico.

Se eu me sentiria realizado, se eu teria uma vida confortável, fruto do merecido reconhecimento até de natureza material, que não há nenhum crime em relação a isso, eu posso dizer para você que eu não me vejo mais realizado em outra frente.

O médico é um pouco de tudo. O médico cuida da saúde, é verdade, o médico é um conselheiro, o médico é um instrutor, é um professor, o médico é conciliador, o médico é um líder.

E hoje, com a visão, sabe, que você tem do casamento da própria indústria, muitas vezes exagerando na apropriação tecnológica de forma desnecessária, o médico passou a conhecer também economia.

Então, é extremamente prazeroso ver as interfaces que a gente pode ter com a saúde e o quanto que a gente poderia, inclusive, ajudar o nosso Brasil se, por acaso, tivéssemos um Brasil menos polarizado.

E eu não estou me referindo a atores, eu estou dizendo que a gente tem que conviver num mundo onde a divergência caminha sempre por uma convergência, onde uma visão da participação dos atores se some à necessidade principal, que é o paciente.

Você sabe, quando eu fui secretário da saúde, Alex, eu fui o primeiro médico a criar o modelo de organização........

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