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Porque é que gostamos de futebol?

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25.03.2026

Sim, porque é que gostamos tanto de futebol? Aqui está uma pergunta com tantas respostas quantos os amantes de futebol. Cada um tem a sua explicação. E em cada resposta podem caber milhares de razões. Talvez por isso possamos começar já a tirar algumas conclusões: o futebol é universal, diverso, multicromático e pessoal.

Cada um sente-o e vive-o de forma diferente. Mas a resposta que eu escolho para a minha pergunta é: rivalidade, enquanto declinação da competitividade.

A rivalidade é o motor do futebol como paixão e indústria.

(Detesto esta expressão, indústria do futebol. Acho que rebaixa o instinto primordial da paixão pelo jogo. Mas hoje não há nada a fazer. O futebol é uma indústria de milhões de milhões, paga e alimentada pelos adeptos/clientes)

Sem rivalidade, não se enchiam estádios nem se rebentavam recordes de audiências televisivas.

É através do futebol que derramamos as nossas ambições, a nossa ânsia de superação, a nossa vontade de chegar mais longe e de ter sucesso. E se a vida não nos dá isso, resta-nos o futebol. A nossa equipa que faça por nós aquilo que nós não conseguimos fazer no trabalho, na família, nas amizades, no amor e nos desejos.

(A rivalidade é a minha primeira escolha para gostar tanto de futebol, entre muitas outras: a emoção, a incerteza, a beleza, a maestria dos talentos, o rugido das bancadas, as sensações à flor da pele. Mas há mais, muitas mais explicações. Se quiseres partilhar comigo as tuas razões, sou todo ouvidos: jno.abola@outlook.pt)

Não foi no berço da rivalidade que nasceu, modestamente, o futebol. A princípio, era um jogo de cavalheiros, um entretenimento que ganhou dimensões, insuspeitas na altura, quando surgiram os primeiros rivais sérios. Uma equipa de operários tentava desafiar o domínio incontestado das equipas aristocratas. Nascia, então, sim! o futebol da rivalidade, do confronto de classes, de cidades, de bairros e de ruas. Nasciam também as claques e os espectadores entusiastas, nascia finalmente a emoção — ou as emoções — do futebol.

E apareceu, também, a profissionalização do futebol. Vendiam-se bilhetes para assistir aos jogos, começaram a organizar-se as primeiras competições, foram sendo criadas e aprimoradas regras, o futebol começava a ser um caso sério de atração popular, em Inglaterra e cada vez mais no resto do Mundo.

Lentamente, foram-se sedimentando rivalidades. Saudáveis, a princípio, cáusticas e corrosivas depois. Grupos de adeptos-delinquentes viam na refrega do futebol uma oportunidade para impor a cultura dos gangues e levar para os estádios os confrontos físicos, muitas vezes de extrema violência.

Quando a tragédia enlutou o futebol em 1985, puseram-se trancas à porta. Tarde demais, evidentemente.

O país que deu o futebol ao Mundo demorou um século a regulamentar e a disciplinar os desvios da rivalidade, que cedo transformara adversários em inimigos. O fair play tinha sucumbido perante o ódio, a violência, os insultos, as agressões, as ameaças e as mortes. Foi preciso esperar cem anos até que os ingleses fizessem aquilo que foram obrigados a fazer: domesticar a rivalidade.

Em Portugal, talvez nem daqui a cem anos consigamos ter a mesma cultura de respeito mútuo nem a mesma legislação severa e implacável que pune os atentados ao jogo, à verdade desportiva e à competitividade saudável.

Em Portugal, o insulto é gratuito e vive sem castigo.

Civilização, paixão e cultura

Gostar de futebol é, portanto, uma reação instintiva. Se a rivalidade é o motor e o rastilho, a paixão é o combustível. E em nós existe, muitas vezes ao mesmo tempo, a euforia e a depressão, a alegria e a tristeza, o sucesso e o fracasso, a esperança e o desespero. Tudo dentro de um jogo de futebol.

Mas se tudo é assim tão belo e empolgante, porque é que a emulação haveria de estragar a competição, porque é que a vontade de ser melhor do que o adversário haveria de transformar-se em ódio?

É o instinto animal dentro de nós. E só há uma forma de disciplinar esse instinto: civilizacionando-o. Primeiro, através de regras, depois, através de hábitos, até que o respeito mútuo, a rivalidade saudável e a competição livre e aberta se tornem um sinal da cultura dos povos.

Os últimos quilómetros

Dizem os entendidos das motas que a pior parte de uma longa viagem a caminho de casa são os últimos quilómetros. Depois de muito tempo concentrados e atentos a todos os perigos, os motociclistas sentem-se subitamente descontraídos quando se aproximam de casa. As curvas são familiares, aqueles últimos metros são viajados em ambiente relaxado. É um alívio chegar, finalmente, a casa. E é então que se dão os acidentes. Distraídos e desconcentrados, os motociclistas facilitam e caem na armadilha da fadiga invisível.

Num campeonato de futebol, o mesmo pode acontecer. A concentração dos primeiros jogos, a energia viva e disponível, o anseio da viagem, tudo concorre para tornar os primeiros jogos mais fáceis e descontraídos. Mas, à medida que o fim da caminhada se aproxima, a fadiga e o excesso de confiança começam a pregar partidas e a tornar mais difícil de superar qualquer pequeno obstáculo. É preciso então convocar toda a atenção e vigor e antecipar curvas perigosas, pisos escorregadios e outros elementos que surgem ao caminho.

Depois da difícil vitória em Braga, faltam sete curvas apertadas para regressar a casa. O pior que podia acontecer agora ao FC Porto era pensar que o caminho está feito e que o mais difícil foi conquistado. Depois do que aconteceu na capital do Minho, ficámos a saber que o FC Porto tem muitos mais adversários do que as equipas de futebol que jogam contra nós. Ignorar isso pode ser fatal. Do FC Porto exige-se sempre o dobro do que é necessário.

Jorge Valdano, argentino campeão do Mundo em 1986 ao lado do imortal Maradona, escreve regularmente alguns dos textos mais ricos sobre futebol. Cronista respeitado e admirado, Valdano também escreve livros. Hoje recomendo, na versão original em castelhano (desconheço se há uma edição portuguesa), Fútbol: El Juego Infinito. Uma viagem muito interessante sobre a evolução do futebol e, em particular, de quem o alimenta através da sua paixão e pela força da rivalidade: os adeptos, que começaram por gostar da bola e do golo e transferiram depois as suas energias emocionais para os heróis e os símbolos. Deixaram de ser apenas adeptos, passaram a ser também — e sobretudo — clientes.

Fútbol: El Juego Infinito. Vale a pena ler.


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